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  • Escrito por Gustavo Pinto | Edição Douglas Cavalcante

Orgulho de si: Conheça a história do articulador social e homem trans Kawan

Kawan é um jovem nascido na periferia de São Paulo que se descobriu homem trans aos 18 anos de idade e com muito orgulho de si, enfrenta as barreiras que lhe são impostas na sociedade.


No mês do Orgulho LGBTQIAPN+, diversas ações são difundidas não só no Brasil, mas no mundo inteiro, é o mês do orgulho graças a revolta de Stonewall de 1969, que é comemorado no dia 28 de Junho de todos os anos desde então. A UNAS tem como um dos seus valores a Diversidade, nesse caso é incentivado o acolhimento e o respeito para nossos atendidos e trabalhadoras e trabalhadores, como é o caso do Kawan, que tem 23 anos que é um homem trans e é articulador social do Centro de Cidadania LGBTI Edson Néris, projeto da UNAS em convênio com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania.


Kawan Freitas de Souza Merce, nasceu em 15 de Março de 2000, na zona sul de São Paulo. O articulador começa sua trajetória na sua adolescência, quando começou a não se identificar com as outras pessoas no mundo, na escola era onde conseguia se sentir confortável de falar e ser quem era com seus 13,14 anos, foi nesse período que começou a descobrir sua sexualidade. Na época Kawan que era uma menina cisgênero começou a se identificar como lésbica mas foi só com 18 anos indo numa festa que conseguiu descobrir que era um Homem, foi nessa fila de balada que ele entendeu o que era e que não precisava mais se esconder.


O articulador não teve muita dificuldade para se entender, mas como a maioria dessa população se viu somente com o apoio de sua mãe que o protegeu desde então “Minha mãe sempre me disse que dentro de casa eu seria sempre respeitado mas na rua ela faria o que podia pra me proteger” disse ele ao contar como foi a aceitação da família. O restante da família aceitou, mas mesmo assim teve que conviver com algumas piadas que aconteceram com outros membros de sua família, mas ele seguiu mesmo assim e não deixou com que isso o abalasse, o que é muito importante já que o Brasil é o país que mais mata a população LGBTQIAPN+ no mundo, de acordo com levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), ao menos 256 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros foram vítimas de morte violenta em 2022, foram apontados 242 homicídios e 14 suicídios ao longo do ano passado, ou seja, uma morte a cada 34 horas.

Nessa época de descoberta, Kawan através de uma fábrica de cultura teve seu primeiro contato com a fotografia, uma de suas grandes paixões, foi ali que ele pode entender que as lentes o ajudaram a enxergar o seu próprio corpo de forma única e especial, assim como o dos outros. Neste momento, o jovem procurava emprego pois queria ser independente e começar sua transição, mas sendo mais um corpo preto no Brasil, o trabalho foi e é um estigma, já que é um dos países mais racistas do mundo.


“Minha vida era bem difícil nessa época, eu já tinha casado e queria ter meu espaço, mais liberdade e começar minha transição mas sem dinheiro estava muito difícil, foi aí que eu conheci o Transcidadania”, contou ele ao relembrar o momento que vivia antes do programa que segundo ele, mudou sua vida. O Programa Transcidadania promove a reintegração social e o resgate da cidadania para travestis, mulheres transexuais e homens trans em situação de vulnerabilidade, e através dessa oportunidade ele que era atendido do nosso Centro de Cidadania pôde ter sua independência e até fazer estágios em algumas áreas que nunca imaginou que poderia se especializar.

O programa Transcidadania utiliza a educação como principal ferramenta, as beneficiárias e os beneficiários recebem a oportunidade de concluir os ensinos fundamental e médio, ganham qualificação profissional e desenvolvem a prática da cidadania. Para Kawan o programa e o contato com o Centro o transformou, foi ali que ele conseguiu um estágio em ISTs e prevenção, em seguida conseguiu se especializar em educomunicação até ser chamado pela Gestora do projeto, Gerohannah Barbosa, para integrar sua equipe como articulador social.


A passagem de Kawan pelo programa permitiu que ele começasse sua hormonização, um processo que para muitas pessoas Trans começa antes sem acompanhamento médico e com automedicação, que é errado, “Eu indico muito para que todo mundo espere e faça acompanhamento médico nesse processo, pelo bem da própria saúde, eu nunca me automediquei com hormônio, acho que mesmo que demore vale mais a pena, eu sei que é mais seguro, porque a gente tem que estar bem conosco para começar a transição, não adianta você estar mal para passar por esse processo” relatou ele ao relembrar seu processo.


Uma pesquisa realizada na Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) estimou que a proporção de indivíduos identificados como transgêneros ou não-binários na população adulta brasileira é de aproximadamente 2%, dentro desse recorte, os homens trans, ou algumas outras denominações como Boycetas e Transmasculines são muito invisibilizados, a letra T como um todo passa por esse processo de apagamento mas os homens que se encaixam no T são ainda menos, no próprio programa Transcidadania hoje na zona sul eles são 15 de 102 pessoas atendidas. Na mídia e outras representações, dão a impressão que o T na sigla LGBTQIAPN+ se trata somente de mulheres trans e travestis.

Dentro de toda essa discussão e problemática de visibilidade Kawan nos trouxe também outra perspectiva muito importante, a racial. Sendo um Homem Preto e Trans ele nos contou que “Antes da transição eu nunca fui parado pela polícia, mas agora sou parado sempre, tirando a hipersexualização que sofro sendo um homem preto trans”. Uma pessoa preta no Brasil já sofre muito com esse país racista, sendo uma pessoa trans o preconceito vem muitas vezes duplicado, com um peso muito maior, hoje uma pessoa preta no Brasil sofre, mas uma pessoa trans e preta sofre mais ainda.


Muita gente que não conhece o articulador não sabe que ele é trans, dentro da comunidade essas pessoas são conhecidas como passáveis, passam despercebidas, explicando melhor as pessoas as tratam como cisgênero, que é considerado por uma sociedade transfóbica como “normal” e ao descobrir que não são cis mudam seu tratamento com as pessoas, ele nos detalhou que “Eu hoje sou muito passável, muita gente não sabe que eu sou um homem trans, mas isso não é muito motivo de orgulho, tem muita gente que muda o tratamento comigo após descobrir que eu sou trans, erram os pronomes, tem um certo receio comigo sabe, tirando as pessoas que me olham como exótico quando eu falo”.

Kawan hoje faz um trabalho muito importante e sensível na Unidade Móvel do nosso Centro, a van oferece, de forma itinerante, informações sobre direitos, leis que protegem a população, onde acessar os serviços de saúde e assistência social, além de realizar mutirões de retificação de nome e gênero, fazendo o direcionamento dessa população para os Centros de Cidadania de São Paulo. Mas segundo ele, o ambiente de trabalho em si contribui muito para que o trabalho flua “Aqui na UNAS e no Centro tem muito respeito, me sinto abraçado, mesmo que não tenha contato com todos da empresa, eu acho que a partir do momento que tem pessoas trans trabalhando a empresa já é acolhedora”.


Homens trans precisam estar em espaços, precisam de visibilidade, de acolhimento e acima de tudo respeito. É preciso que as empresas abram suas portas para essa população, eles são seres humanos e precisam ser tratados como tal, aqui deixamos nosso orgulho de ter pessoas trans em nossos projetos, com eles o ambiente fica mais rico e diverso, mais colorido e completo. Vamos nos orgulhar de ser quem somos!


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