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  • Escrito por André Silva | Editor Douglas Cavalcante

UNAS: uma organização essencialmente feminista

De sua origem até o trabalho realizado atualmente a UNAS é uma organização criada, composto e dirigida por mulheres. Hoje são 537 trabalhadoras no desenvolvimento direto das atividades, além delas estarem em 77% dos cargos de gestão e liderança.

 

Foi na década de 70 que a Prefeitura de São Paulo retirou 153 famílias da favela da Vila Prudente e Vergueiro e alocou provisoriamente onde hoje é a favela de Heliópolis. Foi também nessa década, em 1978, que os moradores de Heliópolis se viram na necessidade de se organizar na luta pelo direito à moradia e à posse de terra, surgindo então a Comissão de Moradores, que veio dar origem à UNAS anos depois.


No que se trata dos direitos às mulheres, na década de setenta elas ainda precisavam de um homem para assinar um contrato para solicitar um cartão de crédito ou um empréstimo. E não para por aí, nessa época mulheres legalmente não podiam divorciar de seus matrimônios, mas poderiam ser devolvidas aos pais em um prazo de dez dias depois do casamento, caso fossem “desonradas” antes do casamento. E foi mais para o final dos anos setenta que o Brasil teve a sua primeira senadora, Eunice Michiles, mais de um século e meio depois.


Em Heliópolis, o início dos anos 80 marca a chegada de Genésia Ferreira da Silva Miranda, uma migrante paraibana, mãe de três filhos, que veio para São Paulo em busca de trabalho e de um sonho: ter a casa própria. Os desafios encontrados entre a sua realidade e seus sonhos foram muitos, como o conflito com os grileiros, ameaças, tentativas de mortes e o medo da ditadura militar. O medo, a insegurança e a esperança serviu como uma receita de resiliência para Genésia, que decidiu “morrer lutando” ao continuar junto à comissão de moradores de Heliópolis e em um grupo de organização de liderança de favelas, de Frei Sérgio Calixto Valverde.



As ações truculentas dos grileiros chegou a ameaçar a saída de Genésia e de seu parceiro, João Miranda, e foi em uma dessas investidas violentas que Genésia encontrou ainda mais força para uma organização popular quando um grupo de grileiros cerca João e Genésia na frente de outros homens, que ao invés de ajudar, preferem correr. No outro dia, ela encontra esses mesmos homens e questiona o comprometimento deles na luta por suas famílias contra um sistema de opressão de direitos. A resposta deles? Proibirem suas esposas de conversar com Genésia. O que não funcionou.


Genésia encontrou nessas mulheres uma maneira de se organizar na luta por seus direitos à moradia e, através delas, chamar mais gente para essas trincheiras sociais, incluindo seus maridos. “O grande desafio é convencer os homens para vir junto com a gente, pra fortalecer essa luta.” diz Genésia no documentário Projeto Memórias de Heliópolis (2012).



“Criamos um grupo de pessoas para discutir os nossos direitos, nessa época a Cleide (atual presidente da UNAS) era adolescente e veio se unir a nós junto com outras pessoas.”  conta Genésia. “A mulher sempre teve um papel na sociedade de unificar os saberes e lutar, trazendo os homens para lutarmos juntos, entendendo que eles tinham responsabilidades com suas famílias.”


A partir dessa articulação, Genésia se impõe historicamente não como um paradigma do que existe, mas como um modelo a ser seguido. Ao longo desses 45 anos de organização, a UNAS se tornou uma força motriz na promoção da igualdade de gênero e no empoderamento das mulheres. A UNAS não apenas testemunhou mudanças significativas na vida das mulheres, mas também continuou a inspirar mulheres na luta de novas trincheiras sociais através do seu processo de formação, projetos e dos movimentos de base, como o Movimento de Mulheres de Heliópolis e Região. É onde entra Mayara Esteves, de 33 anos, ativista e auxiliar administrativa na UNAS. Na organização desde os 16 anos, Mayara participa do Movimento de Mulheres desde a sua criação, em 2012.


“As mulheres (de Heliópolis) sempre foram participantes ativas nas articulações e grupos para garantia de direitos e a partir de 2012 passaram a se organizar como um Movimento de Mulheres.” conta ela. “É de extrema importância, e uma grande honra na verdade, participar desse espaço em que as mulheres em sua grande maioria são as protagonistas.”



Mayara vê um longo caminho para trilhar na luta pela garantia de direitos das mulheres, ressaltando a participação ativa na política e em espaços de decisões. “O combate ao machismo ainda é necessário e mesmo avançando em alguns aspectos precisamos de mais políticas públicas, bem como precisamos ampliar cada vez mais nossa participação nos espaços de poder e decisão garantindo dessa forma que nossa voz seja ouvida e que possamos não só apresentar nossas demandas, mas que as soluções para elas possam ser pensadas por nós também.”


A UNAS desempenha um papel fundamental na construção de um futuro igualitário e justo para as mulheres. Seu compromisso contínuo com o empoderamento feminino destaca-se como um exemplo inspirador de como as organizações podem desempenhar um papel ativo na promoção de mudanças significativas. A sua jornada de transformação, reafirmando a importância de colocar as mulheres no centro das estratégias para construir comunidades mais fortes e equitativas é exemplificado nos dados. Além de ter uma presidenta no comando da organização, a UNAS conta com mais de 700 colaboradores e colaboradoras, dos quais 74,55% são mulheres. Elas são gestoras, educadoras, coordenadoras, pesquisadoras e entre outras funções, elas estão aqui há muito tempo ou chegaram agora para somar e multiplicar, como Sabrina Santos, estudante, pesquisadora do Observatório De Olho na Quebrada e ativista social.


“Trabalhar com outras mulheres na UNAS me fez ver o mundo de outra forma. Uma forma  mais crítica e consciente. Estamos sempre debatendo e questionando as questões que nos afetam.”


Para Sabrina, os relatos no território ligados à desigualdade no trabalho, violência contra as mulheres, feminicídio, pouca participação política e entre outros problemas, é sinônimo para um alerta constante e a luta contínua.



“Eu sinto que, se existe um movimento que tem a capacidade de transformar todos os problemas que vemos em Heliópolis e no Fundão do Ipiranga, esse movimento é o de mulheres.” explica, Sabrina. “E nós, mais jovens, estamos interessadas em levar adiante a organização e o projeto emancipatório dessas mulheres de luta.”


 

Ouça Agora ao Podcast Mulheres de Luta: A série Mulheres de Luta, criada pela UNAS traz quatro relatos em áudio da vida real, com objetivo de partilhar lutas, vivências e trajetórias de mulheres potentes.






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