Helipa Games promove inclusão digital e novas perspectivas em Heliópolis
- Escrito por Marcela Muniz | Editor Douglas Cavalcante
- 30 de abr.
- 5 min de leitura
Evento reúne jovens e promove acesso a tecnologias ainda distantes da realidade de muitas famílias do território

Na maior favela de São Paulo, estima-se que 94% das famílias de baixa renda comprometem mais de 2% de sua renda com internet. Foi nesse território de exclusão digital que, no último sábado (25), centenas de moradores de Heliópolis ocuparam a quadra da UNAS para a segunda edição do Festival Helipa Games. Ao longo do dia, crianças e adolescentes participaram de campeonatos de FC e Free Fire, com premiações e sorteios. Para além da diversão, o evento buscou proporcionar acesso em um território marginalizado e mostrar que os games também podem ser um caminho profissional concreto para jovens da periferia.
Mesmo diante do crescente avanço tecnológico no mundo todo, em Heliópolis, o acesso ainda é limitado. Até a internet, que atualmente é um instrumento essencial, ainda não está presente em todas as casas do território. Jacqueline Silva, 33, esteve envolvida na organização do evento e observa que esse é o principal obstáculo para que os moradores possam acessar as demais tecnologias dentro da favela. “As famílias não têm condição, não têm recurso para ter aparelhos de última geração”, conta.
Em 2024, a pesquisa TIC Domicílios identificou que apenas 22% dos usuários de internet no Brasil investem menos de 2% da renda familiar com o serviço. Sob o recorte das classes D e E, nas quais estão inseridas a maior parte dos moradores de Heliópolis, a porcentagem de usuários que não têm sua renda tão comprometida com custos de internet cai para apenas 6%. Os dados comprovam que a internet ainda é considerada financeiramente inacessível para as famílias do território, considerando o alto custo em relação à renda, limitando o acesso à tecnologia.
A segunda edição do Helipa Games contou com uma estrutura que possibilitou que os moradores presentes no evento tivessem acesso a equipamentos de última geração, conexão à internet e um ambiente pensado para a prática e a experimentação dos jogos eletrônicos. Um exemplo que os jovens puderam ter contato durante o festival, foi o PlayStation 5, versão mais atualizada da linha de videogames.
Atualmente, o preço para a compra de um console de PS5 está em, aproximadamente, 3,5 mil reais, correspondendo a mais de 2 salários mínimos (R$1.621 em 2026). Pedro Enrique Nevez, 26, educador do projeto Inova Helipa, acredita que esse contato desperta algo que vai além do jogo. “Trazer um PS5 [para o evento em Heliópolis] é quebrar essa barreira de que na favela não pode”, reflete. Para ele, promover um evento como o Helipa Games, é importante “para não deixar o sonho morrer”.
Jacqueline reflete sobre a importância do espaço como forma de enfrentar a desigualdade no acesso à tecnologia na favela, por meio dos games. “Sabemos que muitas das crianças e dos adolescentes que vivem aqui não têm acesso a jogos de última geração. [O evento] É um avanço”, afirma. Coordenadora do Inova Helipa, projeto voltado à tecnologia, Jacqueline destaca que os educandos também participaram do desenvolvimento do Helipa Games. Segundo ela, os jovens tiveram espaço no processo que antecedeu a realização do evento. “Eles puderam sugerir o que achavam interessante e pensaram nos detalhes”.
O projeto Inova Helipa é uma iniciativa que visa a formação de jovens de Heliópolis, principalmente meninas, para a criação de soluções inovadoras para os desafios locais, promovendo a inclusão no mercado de trabalho da tecnologia. Pedro reforça que os jovens puderam exercer a sua autonomia a partir da organização do evento. “Ver eles tomando a frente, puxando os trabalhos para eles mesmos, assumindo a ‘responsa’ de fazer acontecer, e se apropriando desse espaço, foi a coisa mais maravilhosa do mundo”, compartilha. Para ele, essa participação se conecta com a missão do projeto de possibilitar que os jovens assumam um papel central. “Eles se sentem parte desse movimento e mostram a potência da juventude. Essa governança liderada pela juventude é o segredo.”

Diante deste contexto, Pedro ressalta que o uso dos jogos como porta de entrada para a tecnologia é essencial, principalmente porque cria um ambiente mais acessível e próximo da realidade dos jovens. “Aqui no território é muito mais fácil se comunicar e entender as demandas do jovem, o que ele pensa, no meio de uma partida [de jogo], do que numa entrevista. É mais lúdico”, expressa Pedro. “Quando colocamos o adolescente num ambiente que ele conhece e gosta, e adiciona coisas nesse ambiente, funciona muito melhor. Seja para trazer cultura, mensagem política, conscientização ou até para incentivar ideias”, completa.
Jonathan Verdelho, 28, foi morador de Heliópolis e hoje é jogador profissional de FC. Ele esteve presente no Helipa Games para prestigiar o evento e reflete sobre como, ao proporcionar o espaço, o evento quebra barreiras históricas: “Às vezes é o primeiro contato dos adolescentes com um equipamento assim. Eu já fui uma criança que não tinha isso em casa e agora eles podem vir a um evento onde o acesso é livre para se divertirem”. Kathleen Proença, 27, social media na Rise Games, ressalta que iniciativas como o Helipa Games são fundamentais para possibilitar que crianças e adolescentes da periferia enxerguem novas perspectivas de futuro. “Eu cresci na periferia e ter acesso a videogames fez total diferença na minha vida para que eu conseguisse sonhar grande”, completa.
O evento também buscou apresentar os games como uma possibilidade concreta de futuro profissional para crianças e adolescentes da comunidade. A presença de olheiros, jogadores e equipes profissionais durante o festival reforçou a ideia de que os games podem se tornar uma carreira possível para jovens da periferia. Heloísa Passos, 33, fundadora e CEO da Trexx, uma das empresas apoiadoras do evento, destacou a importância desse contato direto entre os jovens e o mercado. “Para nós [da Trexx] é muito legal vir aqui e trazer alguns times que a gente já trabalha junto, como a Juventus, a Rise, a Elevate, para podermos mostrar para essa geração aqui da favela que dá sim para viver dos jogos”, afirma.

Ney Neto, 45, consultor do escritório de inovação do Unicef, ressalta que as possibilidades vão além de se tornar jogador profissional. “Às vezes a gente pensa no jogo, somente como videogame. Só que por trás tem todo um mercado de criação de música, criação de 3D, design. Então mesmo que a pessoa não trabalhe diretamente como um atleta de videogame, tem toda uma série de coisas, de funções que podem ser realizadas pelos jovens”, afirma.
Heloísa acredita que o impacto vai além da empregabilidade. “Para além do mercado de trabalho, eu gosto muito dos jogos, porque os jogos desenvolvem a gente como ser humano e como comunidade. É o ambiente onde a gente pode realmente se transformar e se construir como pessoas”, completa.
Além da infraestrutura, o evento também funcionou como um espaço de convivência e troca de experiências, aproximando diferentes gerações em torno dos games. O Free Fire, por exemplo, é jogado coletivamente, mas à distância. No Helipa Games, os jovens puderam estar presentes fisicamente, compartilhando o mesmo ambiente, torcendo uns pelos outros e construindo vínculos a partir de uma prática que, no cotidiano, costuma acontecer de forma individualizada.
O Festival Helipa Games é uma realização da UNAS, UNICEF e Ola.gg
com o apoio de: Nobox Group, TokenNation e a Trexx.

























































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