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“A favela tem poder”: Helipa Music transforma música em ferramenta de luta por direitos

  • Escrito por Marcela Muniz | Editor Douglas Cavalcante
  • há 43 minutos
  • 6 min de leitura

Festival promovido pela UNAS reuniu crianças e adolescentes de Heliópolis e região em apresentações autorais sobre violência, racismo, feminicídio e desigualdade social


O estado de São Paulo registrou, no último ano, cerca de 300 mil casos de violência doméstica. Os casos de feminicídio ultrapassaram 200 ocorrências, representando um aumento de 10% em relação ao ano anterior. Já as mortes causadas por policiais chegaram a 834. Os dados, divulgados pela CNN Brasil, evidenciam diferentes formas de violência e da negação de direitos que atingem a população paulista, principalmente sob o recorte das favelas, que são constantemente vulnerabilizadas.


Em resposta a essa realidade, crianças e adolescentes de Heliópolis e de comunidades do entorno subiram ao palco do Festival Helipa Music, no último sábado (23), para apresentar músicas autorais que abordaram temas como desigualdade social, violência e falta de acesso a direitos básicos. As apresentações reuniram centenas de pessoas e tiveram como objetivo dar visibilidade às vivências da favela por meio da arte e da música.


Festival Helipa Music ocupa rua da Favela de Heliópolis para apresentação de crianças e adolescentes de projetos sociais da UNAS | Foto: Douglas Cavalcante
Festival Helipa Music ocupa rua da Favela de Heliópolis para apresentação de crianças e adolescentes de projetos sociais da UNAS | Foto: Douglas Cavalcante

Criado em 2010 pela UNAS, o Festival surgiu com a proposta de utilizar a música como ferramenta de transformação social e fortalecimento do protagonismo infantojuvenil. O evento reúne crianças e adolescentes dos 11 CCAs (Centros para Crianças e Adolescentes) gerenciados pela organização em Heliópolis e região. A proposta do Festival assume o papel central dos educandos, que integram todo o processo de criação das apresentações: as letras, as coreografias, os figurinos e as mensagens que desejam levar ao público.


O processo de elaboração das músicas tem início meses antes das apresentações. Nos encontros realizados durante a rotina dos CCAs, os educandos discutem temas como machismo, feminicídio, racismo, homofobia, violência policial. No geral, são espaços para a discussão de direitos que são negados para as favelas diariamente. A partir dessas conversas, os adolescentes desenvolvem letras autorais que falam sobre os desafios enfrentados nas periferias, mas também sobre resistência, direitos e pertencimento.



No CCA Plácido, por exemplo, a construção da música partiu da análise crítica das músicas que os adolescentes já escutavam no cotidiano. Durante as atividades, os educandos e a educadora debateram como determinadas letras naturalizam violências contra mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e moradores das periferias. 


“Preconceito machuca

A gente sabe bem

Respeito não é favor

É direito e também lei”

- trecho da música elaborada pelos educandos do CCA Plácido


Para a educadora do CCA Plácido, Amanda Vitória, 27 anos, o processo vai além da construção artística. “Na verdade, eles [os adolescentes] já conhecem a violência. O que eles talvez não conheçam é como combater ela. É algo que já está inserido no dia a dia deles e às vezes eles não percebem”. Segundo ela, o envolvimento direto dos educandos em todas as etapas fortalece o sentimento de pertencimento e amplia o impacto das discussões para além do espaço do projeto. “Eu acredito que, quando eles fazem parte do processo de elaboração das músicas, eles se sentem pertencentes. E quando eles têm esse sentimento, aquilo passa a fazer mais sentido para eles.”


Amanda também destaca que as apresentações funcionam como instrumentos de multiplicação de saberes dentro das comunidades. “Eu ouço muito eles falarem que ‘ah, mas nós não vamos mudar o mundo com a nossa música’. Eu respondo que, mesmo que não mudem o mundo, eles podem mudar a realidade de um vizinho, de um colega, alguém que sofra algum tipo de violência e não reconheça que aquilo está errado.”


A educadora afirma ainda que o Festival ajuda a formar sujeitos críticos e futuros agentes de transformação dentro do território. “Enquanto as crianças desenvolvem as apresentações, as letras das músicas, desenvolve nelas também o senso crítico e um protagonismo. E nesse processo, a gente forma possíveis lideranças para o território, possíveis educadores ou possíveis formadores de opinião.”


A perspectiva de que o conhecimento construído dentro dos CCAs se espalha para as famílias, amigos e vizinhos também aparece nas falas dos próprios educandos. Lorena, 12 anos, atendida pelo CCA Plácido, afirma que o Festival representa um espaço de escuta e conscientização. “Participar do Helipa Music é importante pelo espaço que temos para falar do que acontece e mostrar que queremos combater”. Na visão da adolescente, o aprendizado construído durante os ensaios e debates ultrapassa os limites do palco. “Enquanto escrevemos a nossa música, a gente sempre aprende coisas novas. E quando a gente aprende, podemos ensinar as pessoas que não sabem sobre essas coisas. Ensinar às pessoas como se proteger.”


Amanda também define o Festival como um espaço de escuta das experiências vividas pelos educandos dentro dos territórios periféricos. “O Helipa Music é uma oportunidade para que as verdades que eles carregam dentro deles sejam ouvidas, vistas e escutadas”, afirma a educadora.


No CCA 120, as crianças desenvolveram uma música sobre a luta histórica das mulheres por direitos. Antes da composição, os educandos participaram de atividades sobre o 8 de março, construíram uma linha do tempo sobre os movimentos feministas e estudaram temas como a Lei Maria da Penha, feminicídio e o movimento “Pão e Rosas”.


“Quebrando o ciclo, a gente mete a colher!

Respeito e direitos para todas as mulheres!

Do passado ao presente

A história nos ensina

Num mundo tão machista

Precisamos ir pra cima!

Lugar de mulher

É onde ela quiser!”

- trecho da música elaborada pelos educandos do CCA 120



Para Kennedy, 10 anos, educando do CCA 120, a música também carrega um compromisso coletivo. “Nossa música se chama ‘Quebrando Ciclos’ porque queremos quebrar o ciclo de violência contra a mulher, do feminicídio que se repete”. Já Dariana, 10 anos, também atendida no CCA 120, destacou o papel da arte como instrumento de conscientização. “Escrever a nossa própria música é importante porque entendemos melhor o tema. Assim, nós aprendemos e podemos ajudar quem precisa de ajuda. Ajudar a denunciar, por exemplo.”


A educadora Letícia Avelino, do CCA 120, explica que o protagonismo dos educandos é construído a partir da autonomia que também recebe dentro do próprio trabalho na organização. “Eu tenho muito protagonismo e autonomia na forma de trabalhar com as crianças e os adolescentes no projeto. E, por ter essa autonomia e confiança [por parte da gestora do CCA], eu penso em replicar isso para eles”. Segundo ela, permitir que as crianças conduzam o processo criativo é parte essencial da proposta do Festival. “Quando nós [adultos e educadores] fazemos tudo por eles ou no lugar deles, o protagonismo não acontece. Tudo tem que ser deles, porque [o evento] é feito por eles. É assim que criamos autonomia, independência, para que eles não dependam da gente para tudo.”


Letícia também relaciona a forma como conduz o trabalho com as experiências que teve dentro da própria organização. Segundo ela, a confiança recebida ao longo da trajetória na UNAS influencia diretamente a maneira como busca construir autonomia junto aos educandos. “Desde que eu entrei na UNAS, eu sempre tive pessoas na organização que confiaram em mim. Antes de trabalhar no CCA, estive em outro projeto que tive muito apoio para ser protagonista. Então, eu estou aqui acreditando neles [nos adolescentes] porque tive pessoas que acreditaram em mim.”


Os educandos também compartilham da percepção da confiança construída no processo e da sua importância. Para Kennedy, o incentivo recebido durante a construção das apresentações fortalece sua autoestima. “Quando eu tenho a confiança da Letícia [educadora], eu me sinto dono do mundo. Sinto que eu sou capaz.” 


A lógica dialoga diretamente com os princípios do Bairro Educador, conceito construído em Heliópolis e defendido pela UNAS, que compreende o território como um espaço coletivo de aprendizagem, baseado na autonomia, responsabilidade e solidariedade. Nesse contexto, o Helipa Music se consolida como uma ferramenta educativa que articula cultura, formação crítica e participação social. No palco, os educandos compartilham experiências, reivindicam direitos e fortalecem a identidade das favelas como espaços de potência.


No CCA Pam, a música abordou o preconceito enfrentado por moradores das favelas, o apagamento das histórias construídas nesses territórios e a valorização da cultura periférica. Para Alejandro, 14 anos, atendido no projeto, “o Festival Helipa Music é importante para mostrar que a favela tem poder.”


“Eu sou resistência

Não ''tamu'' pedindo 

É o nosso direito

Se passei visão 

Passei com talento

Sou merecedor

Sempre em movimento

Salve Dandara, Salve Zumbi”

- trecho da música elaborada pelos educandos do CCA Pam


Enzo, 12 anos, também é educando no CCA Pam e ressaltou a importância do processo de aprendizado construído durante a criação da música. “Para mim, é muito importante o que aprendo enquanto escrevemos a letra da música, porque me ensina a ter mais noção do que acontece aqui dentro da favela. Eu comecei a entender o que sofremos, muito racismo, preconceito”. Já Nicolas, de 13 anos, destacou o impacto pessoal da experiência no palco. “Antes de participar do Festival, eu era tímido. Quando subi no palco pela primeira vez, eu senti que eu tinha voz. É uma forma de me comunicar.”


Ao transformar experiências coletivas em música, o Festival Helipa Music reforça o papel das crianças e adolescentes como sujeitos ativos dentro de seus territórios. O evento evidencia como a arte pode se tornar instrumento de formação política, fortalecimento comunitário e multiplicação de saberes nas periferias.


O Festival Helipa Music é uma realização da UNAS Heliópolis e Região em termo de fomento com a Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo com apoio do projeto Garoto Cidadão da Fundação CSN

 
 
 

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