UNAS e UNICEF lançam projeto de tecnologia para jovens de Heliópolis
- Escrito por Douglas Cavalcante
- há 2 dias
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Iniciativa de capacitação tecnológica conta com 80% de participação de meninas
Embora o mercado de tecnologia esteja entre os que mais crescem no mundo, impulsionado pelos avanços digitais dos últimos anos e pela crescente demanda por profissionais qualificados, o acesso a essas oportunidades ainda é profundamente desigual. No Brasil, a participação feminina nesse setor segue sendo minoritária, reflexo de barreiras estruturais que limitam o acesso de meninas e mulheres à formação tecnológica e às oportunidades de desenvolvimento profissional. Em territórios periféricos como Heliópolis, essas desigualdades tornam-se ainda mais evidentes, afastando muitas jovens de um dos campos que mais concentram oportunidades de trabalho na atualidade.
Segundo dados da Brasscom, as mulheres representam apenas 20% das profissionais de tecnologia da informação no país. Desigualdades históricas de gênero ainda se refletem de forma marcante nesse setor, revelando que o avanço tecnológico ainda convive com profundas barreiras sociais.
É nesse contexto que surge, na maior favela de São Paulo, uma iniciativa inovadora que busca capacitar e ampliar o acesso de jovens periféricos à área de Tecnologia, especialmente meninas. O Projeto Inova Helipa é uma realização da UNAS e do UNICEF, que reconhece o território como um espaço de experimentação e transformação social, no qual crianças, adolescentes e jovens assumem papel central na criação de soluções inovadoras para os desafios locais.

A coordenadora do Inova Helipa, Jacqueline Nascimento, 33 anos, explica como surgiu a necessidade de criação do projeto e detalha como a iniciativa será desenvolvida ao longo de 2026. “O projeto nasceu da necessidade de enfrentar a exclusão digital vivida por crianças e jovens de Heliópolis. A iniciativa busca transformar essa realidade ao promover inclusão, protagonismo juvenil e acesso à tecnologia como ferramenta de desenvolvimento e cidadania. O projeto está organizado em três etapas interligadas: formação, prototipagem e institucionalização da inovação comunitária. Para isso, contará com uma equipe formada por dois educadores como pontos focais, além de 10 jovens moradores de Heliópolis, sendo 8 meninas da comunidade.”
Foram mais de 200 inscrições para participar do projeto. Entre elas, a de Kathleen dos Santos, 17 anos, moradora de Heliópolis, que foi selecionada e conta como tem sido a sua chegada ao projeto:
“Eu me inscrevi no projeto com uma expectativa muito grande. Ao longo dessas três semanas estamos tendo mais aulas teóricas e debates, mas ontem a gente já teve uma oficina muito legal, em que colocamos a mão na massa e aprendemos a usar uma ferramenta de IA. Eu estou gostando bastante e tenho uma grande expectativa de, aqui, poder criar algo inovador.”
Em síntese, a intervenção busca organizar capacidades locais, gerar evidências e consolidar mecanismos de governança capazes de transformar iniciativas comunitárias em soluções inovadoras, com potencial de escala e de incidência em políticas públicas. Mais do que um projeto, representa um modelo de inovação social territorial que pode inspirar outras periferias urbanas a desenvolver suas próprias trajetórias de transformação sustentável.
Felipe Gonzalez, oficial de inovação do UNICEF Brasil, destaca o papel estratégico do projeto. “O UNICEF vê o projeto em Heliópolis, em parceria com a UNAS, como uma oportunidade única de articular juventudes, território e inovação social na maior favela de São Paulo. Mais do que ampliar o acesso à tecnologia, essa parceria aposta na inovação como um caminho para enfrentar desafios complexos e construir soluções conectadas à realidade local. Acreditamos que, quando esse processo é cocriado com o território, ele pode gerar transformações reais e promover dinâmicas positivas dentro da própria comunidade. Nossa expectativa é que o projeto contribua para fortalecer trajetórias, apoiar jovens lideranças e também inspirar outros contextos urbanos, mostrando como a inovação pode ajudar a garantir direitos e ampliar oportunidades para crianças, adolescentes e jovens.”
Baixa presença feminina revela barreiras estruturais no setor
Apesar de alguns avanços nos últimos anos, a presença feminina no setor de tecnologia no Brasil ainda é bastante reduzida, reflexo de estruturas sociais que historicamente limitaram o acesso de meninas e mulheres à formação tecnológica e às oportunidades de desenvolvimento profissional. Quando se observa a realidade das mulheres negras, as desigualdades tornam-se ainda mais evidentes: segundo levantamento da PretaLab, elas representam apenas 11% dos postos no setor no país. Mais do que números, esses dados revelam um desafio estrutural que exige ações concretas. Iniciativas como o Inova Helipa apontam caminhos possíveis ao ampliar o acesso de meninas da periferia ao universo da tecnologia, contribuindo para reduzir desigualdades de gênero, ampliar horizontes profissionais e fortalecer a formação de novas lideranças capazes de transformar o futuro de seus territórios.
“Apesar de pequenos avanços, o mercado de tecnologia ainda apresenta muita desigualdade entre homens e mulheres. O Inova Helipa atua diretamente nessa questão. Um dos principais objetivos do projeto é promover a equidade de gênero, buscando atrair mais mulheres para a área de tecnologia. Fico imensamente feliz em destacar que, além de mim, entre esses dez jovens, oito são meninas. Nosso maior propósito é empoderá-las, para que reconheçam que podem ocupar esses espaços, historicamente dominados por homens. Sabemos que muitas meninas e mulheres acabam desistindo da tecnologia por falta de incentivo, apoio ou por não se sentirem pertencentes nesse meio. No Inova Helipa, buscamos criar um ambiente onde elas tenham voz, se sintam seguras e possam se desenvolver da melhor forma possível. A presença feminina à frente de um projeto como o Inova Helipa traz um novo olhar sobre como podemos evoluir e enfrentar os desafios que as meninas de Heliópolis vivenciam no dia a dia, assim como os desafios da população em geral.” Destaca Jacqueline ao comentar o importante papel do projeto na vida e na perspectiva de futuro das jovens participantes.
Vitória Aparecida, 14 anos, é uma das integrantes do projeto e comenta como é estar em um espaço majoritariamente feminino e de que forma a iniciativa tem a inspirado:

“É uma forma de mostrar que mulher também pode acessar a área de tecnologia. Eu pretendo, sim, continuar nessa área, porque é algo que eu admiro muito. É uma área que não é só para homens, e sim para mulheres também. Eu acho muito legal que a maioria do nosso projeto seja de mulheres, porque dá mais visibilidade e reconhecimento para mostrar que a gente tem potencial.”
“Para o UNICEF, trabalhar com meninas e jovens mulheres de Heliópolis é reconhecer que a desigualdade na tecnologia não começa na ausência de internet ou de equipamentos, mas nas barreiras silenciosas que, por muito tempo, disseram a elas que esses espaços não lhes pertenciam. Em territórios marcados por desigualdades históricas, promover inclusão digital com recorte de gênero é enfrentar exclusões profundas. Por isso, nosso trabalho é mostrar, na prática, que elas podem aprender, criar, liderar e usar a tecnologia para transformar suas próprias vidas e também a comunidade onde vivem. Quando uma menina ocupa esse espaço, ela amplia seus horizontes e abre caminho para que outras acreditem que também podem estar ali.” Ressalta Felipe Gonzalez.
Heliópolis como laboratório de inovação
Ao longo de 2026, o projeto oferecerá formação tecnológica e estimulará a criação de soluções na prática, a partir da metodologia User-Created Design, na qual os jovens aprendem fazendo. A iniciativa também busca replicar esses conhecimentos junto a lideranças do território e prevê, ao final do ano, o lançamento do Centro de Inovação Comunitária, que reunirá lideranças locais, universidades, setor privado e poder público em um arranjo de governança capaz de fortalecer a cultura de inovação aberta.


















































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