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Livro narra a trajetória de Braz Nogueira em Heliópolis

  • Escrito por André Silva | Editor Douglas Cavalcante
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

Foi em 21 de Novembro de 1995 que Braz Rodrigues Nogueira chegou à E.M.E.F. Presidente Campos Salles para se apresentar como seu novo diretor, encontrando uma escola — e uma comunidade — definidos por conflitos, violência e pelo descaso do poder público. Entre os muros da escola, Braz sentia seus desejos de mudança sendo sufocados por um corpo docente que agia a partir da omissão do papel que um educador deveria exercer e preso aos próprios interesses. Os mais de mil e oitocentos alunos da escola eram deixados de lado pelo sistema e abandonados diante da imersão na hostilidade comum em Heliópolis na época.


Em diversas ocasiões, Braz cita aquele momento de indagação que antecede o resquício de arrependimento: Meu Deus do céu! O que fiz da minha vida? Mas ele tinha seus sonhos: o de promover uma integração entre todos os segmentos da escola, de compreender o aluno como um ser competente e integral e de envolver a escola e o território.


“A escola é um dos locais privilegiados pela quantidade de pessoas, adultos e crianças, e pela relação com os pais, mas essa educação tem que ir além da escolaridade. A escola tem que aprender a atuar também fora das suas paredes.” relata Braz Nogueira.


Para enfrentar a situação, Braz encontra forças em duas ideias: a de que tudo deveria passar pela educação e de que a escola era apenas um dos espaços responsáveis, mas que a educação precisa ser tarefa de toda a sociedade; e a de entender e transformar a escola como um centro de liderança na comunidade em que se faz presente. A partir desses dois pontos, desenvolveu e fortaleceu o diálogo entre a escola e o território em pequenos passos para romper, de forma prática e simbólica, barreiras erguidas e perpetuadas pelo Estado.


Entretanto, em Março de 1999, Heliópolis foi marcado pelo assassinato de Leonarda Soares Alves, de apenas 15 anos. Aluna da Campos Salles, Leonarda era vista sempre alegre entre os corredores e pátios da escola, sendo simpática com os colegas e também com os professores. A tragédia foi apenas o mais recente episódio da violência constante da região, mais um caso que serviria para perpetuar o medo no imaginário dos moradores. “Senti que aqueles tiros que ela recebeu também eram dirigidos a mim.” diz ele, triste e indignado.


Devastado, Braz compreendia que precisavam enfrentar aquele ciclo de opressão que sufocava a comunidade e seus moradores por dentro e por fora. Em casa, pensou no que havia acontecido com Leonarda e no que deveria fazer para promover mudanças tanto na escola quanto fora dela.


“Era muito difícil enfrentar a situação porque aqueles que cometiam as maiores violências físicas podiam cometer represálias contra nós.” cita o diretor, que encontrou mais forças vindo do apoio entre os alunos. A ideia de realizar uma caminhada lutando pela paz surgiu como uma resposta ao medo e também à esperança, compartilhou a ideia com o colega professor Orlando Jerônimo, que também atuava na escola, e depois com lideranças, como João Miranda. A caminhada precisava ser forte por dois motivos: para que aqueles que queriam paz enfrentassem o medo da violência e lutassem por ela, juntos; e para demonstrar a força da ideia àqueles que não queriam. “Por meio dessa caminhada iríamos difundindo a cultura de paz nas escolas, nos equipamentos públicos e, consequentemente, contribuir para a melhoria da situação em Heliópolis.”


Com o passar dos anos, muitas das experiências vividas e enfrentadas por Braz dentro e fora da escola — os desafios, as mudanças e o fortalecimento — moldaram também o território que tem como o objetivo a ideia do Bairro Educador, e a educação pública.   Esta trajetória de vida é contada no livro “A Escola Junto da Comunidade”, co-escrito por Braz Nogueira com o historiador e pesquisador Luis Henrique Mioto.


Braz, segura seu livro recém lançando em rua de Heliópolis | Foto: Douglas Cavalcante
Braz, segura seu livro recém lançando em rua de Heliópolis | Foto: Douglas Cavalcante

O livro publicado no começo do ano, conta a história de Braz e a sua relação com a educação, destacando os vinte e dois anos em que atuou como diretor na E.M.E.F. Presidente Campos Salles, como o surgimento do Projeto Político-Pedagógico; a derrubada dos muros internos que substituíram as tradicionais salas de aula por grandes salões de estudo; e a construção de um modelo de gestão democrática com a participação dos estudantes, professores, funcionários, das famílias e também da comunidade..


A noite de lançamento do livro não poderia ser em outro lugar senão no palco de toda essa história dos últimos trinta e um anos, uma vez que Braz continua atuando em Heliópolis como uma importante liderança do território mesmo após sua aposentadoria como diretor. O evento, que aconteceu na noite de 23 de abril na Quadra da UNAS, reuniu educadores, moradores, lideranças e parceiros de luta que vieram celebrar essa história.



“O ‘Bairro Educador’ foi o motivo desse livro ter sido escrito. Ele parece ser autobiográfico, conta a minha história, mas o objetivo dele e de todos nós é chegar no Bairro Educador.” conta Braz Nogueira, na abertura do evento.


Durante o lançamento, o encontro também se tornou um momento de memória e reconhecimento da história construída em Heliópolis, revisitando as vivências e os desafios enfrentados por Braz — nunca sozinho — dentro e fora da escola.


“Parece que a gente está batendo um papo com o Braz, eu ouvi a voz dele enquanto estava lendo, como se estivéssemos sentados ali numa mesa tomando uma cerveja.” conta Orlando Jerônimo, que por anos tem sido um dos principais companheiros do Braz em sua trajetória na escola e na comunidade. “O Braz pra mim vai além de um amigo, de um amigo maravilhoso. Ele é e sempre vai ser o meu mestre, o meu mestre em termos de educação, meu mestre em termos de vida.”


“A Escola Junto da Comunidade” pode ser encontrado para o empréstimo gratuito na Biblioteca Comunitária de Heliópolis e para a venda online na Amazon e Livraria Martins Fontes. A história de Braz Nogueira também será contada no filme “Escola sem Muros”, de Cao Hamburger (O ano em que meus pais saíram de férias), que segue em pós-produção e que deve, segundo o Hamburger, ser lançado este ano em algum festival de cinema internacional.


 
 
 

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