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‘Estamos fazendo aula na rua’: Heliópolis ocupa ruas com 28ª Caminhada Pela Paz

  • Escrito por Marcela Muniz
  • há 37 minutos
  • 7 min de leitura

Evento reuniu comunidade, jovens e educadores para debater paz, desigualdade e consciência comunitária nas ruas da maior favela de São Paulo



Na última sexta-feira (19), as ruas de Heliópolis foram tomadas por milhares de pessoas durante a 28ª edição da Caminhada Pela Paz. Realizada desde 1999, a mobilização reúne escolas, projetos sociais, lideranças comunitárias e organizações do território em defesa de políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência na maior favela de São Paulo. Neste ano, a caminhada voltou a destacar o tema “Políticas Públicas + Consciência Comunitária = Sociedade Educadora”, reforçando a importância da participação coletiva na construção de um território mais seguro e cidadão.


A concentração da Caminhada foi a partir das 13 horas na EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Campos Salles, onde o percurso teve início. Ao longo da tarde, o ato passou pela Estrada das Lágrimas até a Rua da Mina Central, atravessando a favela de Heliópolis até a Rua Coronel Silva Castro, e retornando para a Estrada das Lágrimas ao ponto de partida da mobilização.


Robson Silva, 39, é coordenador pedagógico na EMEF Campos Salles, escola que idealizou as primeiras edições da Caminhada Pela Paz, há 28 anos. O coordenador ressalta que ocupar as ruas com a Caminhada é uma forma de aprendizado coletivo e resistência política. “Em Heliópolis, a gente entende que todos os espaços são espaços de educação. Ao caminhar pelas ruas, rompemos os muros da escola e levamos a educação para fora. Estamos fazendo aula na rua”, afirma Robson. 


A percepção de Robson dialoga com o pensamento de Paulo Freire, para quem a educação sempre foi, antes de tudo, um ato político que não se limita à sala de aula. Em sua obra “Pedagogia do Oprimido”, Freire defende que a transformação social exige presença coletiva e ação concreta no mundo. Para Marília de Santis, 49, diretora da EMEF Gonzaguinha (escola que também participa da Caminhada ao longo dos anos), a ideia se efetiva ao levar os alunos para as ruas de Heliópolis. “É importante que a gente coloque o corpo na rua. O corpo da gente é político. Quando estou de corpo me manifestando, é muito mais forte do que assistir uma aula ou escrever um texto”, comenta. 


Escolas e projetos sociais reúnem crianças, adolescentes e jovens para lutar por mais políticas públicas na Caminhada | Foto: Marcela Muniz
Escolas e projetos sociais reúnem crianças, adolescentes e jovens para lutar por mais políticas públicas na Caminhada | Foto: Marcela Muniz

Ato político com a juventude


Marília também reflete sobre a necessidade de ‘passar à frente’ a importância de se manifestar, para que as próximas gerações de Heliópolis possam continuar a luta por garantia de direitos e transformar o território. “Na história do mundo, a juventude sempre teve o papel de fazer mudanças históricas, de provocar mudanças. Sem a juventude, nós não vamos conseguir fazer a mudança que a gente precisa fazer”, aponta. 


Diante desta perspectiva, a Caminhada Pela Paz também promove a inclusão dos jovens na idealização e a sua participação no evento como um ato político. Para Gabrielly, 14 anos, integrante do Grêmio Estudantil da EMEF Campos Salles e multiplicadora do projeto MUDEM, “ter os jovens na caminhada mostra o quanto queremos luta e como já conseguimos ver a desigualdade social, os preconceitos e discriminação, o quanto estamos indignados”.


28 anos depois: a paz que Heliópolis defende


A Caminhada Pela Paz de Heliópolis foi realizada pela primeira vez após o feminicídio da aluna da EMEF Campos Salles, Leonarda Soares Alves, que tinha apenas 15 anos na época. Como forma de enfrentamento a violência no território desde então, a Caminhada não defende qualquer noção de paz. A compreensão que orienta o evento é mais ampla. “Não defendemos uma 'paz da pombinha branca' ou uma paz da simples obediência. Não é uma paz do indivíduo. Nós falamos de uma paz que vem da redução das desigualdades sociais, que só é possível quando a gente tem justiça social e os direitos básicos garantidos”, explica Marília.


Em 1999, Leonarda foi vítima de feminicídio, crime que só passou a ser reconhecido por este nome a parir de 2015 | Foto: Marcela Muniz
Em 1999, Leonarda foi vítima de feminicídio, crime que só passou a ser reconhecido por este nome a parir de 2015 | Foto: Marcela Muniz

A visão de Marília compõe a ideia da cultura de paz promovida pelo movimento, que reconhece a violação de direitos ocasionada pela ausência de políticas públicas como raiz das diversas formas de violência, reflexão que também orienta a organização da Caminhada Pela Paz. “É necessário fazer a discussão: o que está faltando em Heliópolis? O que precisa garantir para que não seja um território que aceita a violência?”. A diretora também defende uma compreensão mais complexa sobre o tema. “Temos que ampliar nossa visão de mundo para falar de violência. Não dá para fazer essa discussão com quem está passando fome, com quem não tem casa para morar, com quem não tem vaga na escola ou não tem lazer”, completa.


Robson acredita que a necessidade de incluir o debate na rotina da comunidade, principalmente através da Caminhada, se deve ao fato de que Heliópolis não está isolado das dinâmicas globais que alimentam a violência. “A gente [na favela] recebe a globalização de fora e, com ela, recebe diversos tipos de informações. E muitas dessas informações trazem violência”, reflete. Para ele, da mesma forma que Heliópolis recebe as influências externas negativas, o território também deve ser o ponto de partida de uma mudança não apenas local. “Heliópolis é o início, mas não é também o fim. Não adianta nós lutarmos só por Heliópolis, a gente precisa ir além do nosso bairro”, completa o coordenador. 



“Para mim, um dos principais feitos da caminhada é ter desnaturalizado a violência”, afirma Marília. A diretora reflete sobre as transformações ocorridas no território e na forma como a violência passou a ser percebida pela população depois que a Caminhada começou a ser realizada. “As pessoas que moram aqui há mais tempo falam que era muito comum você ver, por exemplo, corpos de pessoas mortas na rua. Hoje, se você vê uma coisa dessas, você fica muito chocado”, relata. Robson possui uma visão semelhante sobre o impacto da realização do ato ao longo dos anos, ao afirmar que: “Ninguém mais aceita a violência sem questionar. A gente agora reflete sobre isso, o porquê que tem acontecido”.


A interpretação dos docentes também está, de certa forma, presente no olhar de Gabrielly, que vem participando das edições mais recentes da Caminhada. “Para mim, depois de 28 anos de caminhada, ela pôde mostrar que a comunidade se fortalece com o tempo”.


O Movimento Sol da Paz


Atualmente, o Movimento Sol da Paz é o ponto inicial e a principal ferramenta de articulação da Caminhada. Responsável pelo planejamento das atividades desenvolvidas ao longo do percurso, o coletivo é formado por representantes dos equipamentos do território participantes. “Antes [do evento], nós participamos das reuniões do Movimento Sol da Paz, onde a gente discute, traz reflexões e constrói coletivamente essa Caminhada. É um dos momentos mais importantes”, conta Robson.



“O Movimento Sol da Paz permite que a Caminhada seja algo muito além de um evento que é realizado uma vez por ano. É a possibilidade que o bairro educador tem de se articular e fazer com que todo mundo trabalhe a partir dos mesmos princípios e com os mesmos objetivos”, diz Marília.


A necessidade de articulação de um trabalho sólido em rede está fundamentada no conceito de Bairro Educador, que norteia a organização comunitária em Heliópolis. A ideia é que espaços educativos (escolas, projetos, equipamentos públicos) não operem de forma isolada, mas se conectem entre si e com as realidades do entorno, sem se limitar às suas atribuições institucionais. 


Além de estabelecer um padrão na atuação comunitária em Heliópolis, para Marília, a Caminhada também é um instrumento de fortalecimento das relações que proporcionam a intersecção do atendimento nos espaços. “O fato é que, ao longo de muitos anos organizando a Caminhada, os equipamentos do território vão se conhecendo, criando relações. Assim, construímos ações para o dia a dia além da Caminhada”, reflete. “Por exemplo, eu sou diretora de uma escola. Se eu vejo algum aluno que está com alguma dificuldade, ou uma família que está com alguma vulnerabilidade, sofrendo alguma violência, o que eu posso fazer automaticamente? Posso ligar para a gestora do CCA que ele frequenta, porque eu conheço ela, porque ela está organizando a caminhada comigo”, completa. “Os projetos sociais complementam o trabalho da escola, porque eles oferecem atividades de apoio e aprendizado que ajudam o desenvolvimento das crianças dentro e fora das salas de aula”, observa Gabrielly.


Os preparativos para o evento


A Caminhada é o resultado de meses de trabalho nas escolas e nos projetos sociais do território, onde alunos, professores e educadores debatem o tema, constroem reflexões e desenvolvem atividades que se desdobram nas ruas, a partir das discussões das reuniões do Movimento Sol da Paz.


Na EMEF Campos Salles, uma das iniciativas é o “minuto da paz”, realizado diariamente com os três turnos durante um mês antes da caminhada. “Antes, conversamos com os estudantes, com os funcionários, e estimulamos a reflexão sobre o que é paz para eles e o que estão fazendo para contribuir com a paz. É um minuto em silêncio para refletir”, explica Robson. Para ele, o silêncio tem um significado maior. “Entendemos que paz não é resumida ao silêncio. Mas, dentro de uma escola, que geralmente é repleta de barulho, esse minuto é o momento para pensar. É impressionante ver um minuto que a escola inteira fica em silêncio”


O Festival da Paz também é uma atividade promovida pela EMEF, que compõe a agenda de preparativos para a Caminhada. Com diversas apresentações artísticas de crianças, adolescentes e jovens das escolas e projetos participantes do ato, “o Festival da Paz é o momento de fazer a animação pré-caminhada, para todo mundo estar engajado, sabendo o que vai acontecer, e para que todos participem da mobilização”.


Consciência comunitária como estratégia de luta


Para Marília, a caminhada integra uma estratégia de luta mais ampla. “A Caminhada faz parte do processo complexo de construir uma consciência comunitária e de formular estratégias de luta política”, afirma. 


O tema levado pela Caminhada para as ruas anualmente, reflete um cenário necessário para a transformação efetiva da realidade de Heliópolis. “Precisamos ampliar a nossa consciência comunitária: saber quem a gente é, o que a gente quer, quais são os nossos sonhos, lutas, desafios, que violências sofremos, o que precisamos superar. Refletir principalmente sobre o que é essa paz que estamos perseguindo, para poder exigir políticas públicas do poder público. Aí, sim, vamos alcançar o bairro educador”, diz a diretora.



 
 
 

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