Mais de cinco décadas de luta: moradores de Heliópolis conquistam o direito à escritura
- Escrito por Isabela do Carmo | Editor Douglas Cavalcante
- há 4 horas
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A entrega de títulos de propriedade marca um capítulo da história de resistência da comunidade, construída entre remoções, ameaças de despejo e décadas de mobilização pelo direito à moradia
Quem atravessa a passarela amarela em espiral próxima à Avenida Delamare dificilmente imagina que ali começou uma das mais antigas lutas pelo direito à moradia em São Paulo. Entre 1971 e 1972, 153 famílias removidas das Favelas da Vila Prudente e do Vergueiro foram levadas para alojamentos provisórios no terreno que daria origem à favela de Heliópolis, na zona sul da capital. O que deveria ser uma solução temporária transformou-se em moradia permanente e deu início a uma mobilização que atravessou mais de cinco décadas até chegar à regularização fundiária.

A entrega de cerca de mais de três mil títulos de propriedade a moradores da Gleba K e dos Redondinhos da Rua João Lanhoso representa um marco dessa trajetória. Para quem viveu décadas sob a ameaça de remoções, grilagem de terras e disputas judiciais, o documento simboliza o reconhecimento de um direito conquistado após anos de organização comunitária.
Foi nesse mesmo período que Heliópolis começou a crescer. Às famílias removidas somaram-se trabalhadores, migrantes e pessoas em busca de moradia, que construíram barracos de madeira em uma área sem infraestrutura e sem políticas habitacionais capazes de atender à demanda. Nos anos seguintes, o território foi marcado por conflitos fundiários, ações de grileiros e tentativas de remoção. Em resposta, os moradores organizaram mutirões, reivindicaram infraestrutura e iniciaram a luta pela regularização da área.
A mobilização ganhou força em 1978, com a criação da União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (UNAS). Surgida da luta pela posse da terra, a entidade tornou-se uma das principais articuladoras das reivindicações da comunidade, ampliando o espaço de diálogo dos moradores e o poder público, e expandindo a atuação para áreas como educação, saúde, cultura e assistência social.
Moradora de Heliópolis há 55 anos, Zoraide dos Santos Benedito, de 81 anos, conhece essa história de perto. Ela viveu durante décadas em um barraco às margens de um córrego, na Rua Natali, até ser removida e, posteriormente, reassentada nos Redondinhos, onde mora há 15 anos. "Morava na beira do rio. Só recebi aluguel quando mandaram a gente sair. Antes era um barraquinho", relembra. Para ela, receber o título definitivo representa segurança. "A UNAS foi quem ajudou a gente em todo o processo. É muito importante. Antes eu morava no meio de rato e barata. Hoje parece que estou no céu."

Apesar da conquista, Zoraide afirma que a comunidade ainda enfrenta problemas estruturais. "Falta escola na região e mais linhas de ônibus. Para pegar condução, muitas vezes precisamos subir até a Estrada das Lágrimas."
Maria Helena Vicente Ribeiro, de 70 anos, mora em Heliópolis há quatro décadas. Para evitar um despejo em um bairro no Ipiranga, comprou um barraco com dinheiro emprestado e acompanhou de perto os conflitos pela posse da terra.
"A importância desse documento é enorme. A gente viveu muitos anos com medo. Quando houve a disputa no Copa Rio, por exemplo, a polícia entrava para retirar as famílias. Na época, havia muitos grileiros também. Com a escritura, a gente tem segurança."

Em maio, a Prefeitura de São Paulo entregou mais de 3,3 mil títulos de propriedade durante uma ação do programa Escritura na Mão. A iniciativa contemplou moradores das Gleba K (Quadras 6 e 33) e dos prédios Redondinhos, localizados na João Lanhoso. A ação faz parte da política municipal de regularização fundiária.

Para a presidenta da UNAS, Cleide Alves, a entrega dos títulos representa uma conquista histórica, mas não encerra a luta da comunidade. Segundo ela, a regularização fundiária precisa ser acompanhada de investimentos em infraestrutura e garantia do direito à cidade.
"Não basta entregar a escritura se muitas famílias ainda convivem com problemas de saneamento, mobilidade e acesso aos serviços públicos. A regularização é um passo importante, mas Heliópolis ainda precisa de um plano integrado de urbanização", afirma.
Embora o número de títulos represente um avanço, Cleide ressalta que a quantidade de documentos entregues ainda está distante da realidade de uma comunidade que reúne mais de 200 mil habitantes, cuja história foi construída pela luta coletiva por moradia, permanência e reconhecimento.

























