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"É muito asfalto e pouca árvore”; retrato das mudanças climáticas em Heliópolis

Escrito por André Silva | Editor Douglas Cavalcante
há 5 horas
5 min de leitura

Estudo revela diferença de até 15°C entre as temperaturas registradas na maior favela de SP e outros bairros


Com aproximadamente um milhão de metros quadrados, Heliópolis surge no início da década de 1970 quando a Prefeitura de São Paulo removeu 153 famílias das favelas da Vila Prudente e da Vergueiro para a realização de obras públicas e as transferiu para alojamentos considerados provisórios em uma área que, anos depois, se tornaria a Favela de Heliópolis. O que deveria ser temporário se tornou permanente e, ao longo das décadas seguintes, novas famílias encontraram no território uma alternativa diante da dificuldade de acesso à moradia em outras regiões da cidade. Marcado por diferentes transformações ao longo dos últimos anos, a maior favela de São Paulo lida com a falta de investimentos para melhorias de infraestrutura, ao mesmo tempo que passa por um crescimento populacional e o avanço da verticalização — presente tanto na construção de edifícios quanto no aumento das casas já existentes.

 

Compreender a forma como o território começou a ser construído é importante para o entendimento de que a alta densidade populacional e o crescimento das construções não podem ser tratados apenas como resultados de decisões individuais dos moradores, mas também como parte de um processo histórico marcado pela desigualdade no acesso à terra, à habitação e à própria cidade.

 

Ao mesmo tempo em que Heliópolis cresceu, seus moradores também passaram a reivindicar melhorias capazes de acompanhar essas transformações, como a criação de áreas verdes, espaços de lazer, obras de infraestrutura e equipamentos públicos faz parte dessa mobilização, que conquistou melhorias para o território, como a construção dos Redondinhos e segue presente na luta pela implantação do Parque da Cidadania de Heliópolis, projeto que enfrenta sucessivos entraves para a conclusão das obras.

 

Diante das intensas mudanças climáticas, essas reivindicações ganham ainda mais importância: ampliar a presença de áreas verdes e garantir políticas de prevenção e de adaptação deixa de ser apenas uma questão de lazer e passa também pela adaptação do território aos efeitos da mudança climática, como o calor extremo, às chuvas intensas e aos demais impactos da crise climática.

 

Temperaturas extremas afetam a rotina e a saúde dos moradores


Esta temática têm feito parte do cotidiano da comunidade e surgem muitas vezes nos dias de calor e também nas mudanças bruscas de temperatura. Com ruas e vielas estreitas com construções próximas umas das outras e com poucas árvores, o vento mal circula nos dias quentes e, assim, a desigualdade social também se traduz em desigualdade térmica.

 

Uma pesquisa do Centro de Estudos das Favelas (CEFAVELA), ligado à Universidade Federal do ABC (UFABC), mostrou que Heliópolis registrou temperaturas acima de 44°C — referente à temperatura das superfícies (como telhados, ruas e solo), que são mais altas do que a do ar. O estudo revela um contraste com bairros mais bem equipados com praças, jardins e avenidas arborizadas que permanecem mais frescos, como por exemplo, o Morumbi, que registrou temperaturas próximas dos 30°C. Outro estudo, O clima está mudando e Heliópolis está sentindo, do Observatório De Olho na Quebrada, identifica — através de um mapeamento com moradores, lideranças e estudantes — alguns pontos de temperaturas extremas, destacando os núcleos Mina, Imperador, Lagoa e Pam.

 


Caroline de Jesus, 34, é mãe de dois filhos e vive em Heliópolis há nove anos. Seja dentro de casa ou caminhando pelas ruas, ela convive, assim como outros moradores, com os efeitos das altas temperaturas no cotidiano, intensificados pela pouca circulação de ar em diferentes pontos do território.

 

“Nos dias mais quentes é muito sofrido. Dentro de casa é um forno por causa da telha e na rua não tem sombra, é muito asfalto e pouca árvore.” explica Caroline. “A gente sai para fazer as coisas do dia a dia e já volta exausta, com falta de ar.”

 

O calor intenso e as mudanças bruscas de temperatura expõem os moradores ao estresse térmico, condição que ocorre quando o organismo enfrenta temperaturas extremas e encontra dificuldade para regular a própria temperatura corporal. O estudo do Observatório chama a atenção para os impactos desse processo na qualidade de vida dos moradores, já que a exposição prolongada ao calor pode provocar desde desconforto, náusea e cansaço até consequências para a saúde mental, como irritabilidade e ansiedade.

 

Em Heliópolis, a preocupação aumenta justamente porque, em uma região com pouca circulação de ar entre as construções, enfrentar as altas temperaturas nem sempre se resume à apenas abrir uma janela ou buscar um ambiente mais fresco.

 

“Quando não chove o ar fica seco e no calor a minha filha apresenta brotoejas e aquelas tosse seca. E a noite fica difícil pra dormir, é sempre muito quente.” completa Caroline.

Moradores enfrentam alagamentos e a ausência de políticas  de prevenção  


 

As chuvas e os pontos de alagamento apresentam outro lado dessa discussão. Em Heliópolis, outro estudo do Observatório De Olho na Quebrada — “Do muro pra lá: O retrato do racismo ambiental em Heliópolis” — identifica locais onde alagamentos e acúmulos de água fazem parte da rotina durante os períodos de chuva e a ausência do poder público no que diz respeito à solução destes problemas. Utilizando o GeoSampa, plataforma que mapeia a cidade de São Paulo, o estudo identifica áreas de alagamentos em São Caetano enquanto ignora às existentes em Heliópolis. No núcleo Lagoa, por exemplo, moradores já apontaram pontos de alagamento que nunca aparecem nos levantamentos oficiais sobre a cidade. A situação evidencia uma dificuldade que vai além dos próprios eventos climáticos, como a necessidade de pensar políticas de prevenção e de adaptação.

 


Gildevania Vicente, 51, mora na Viela Santa Luzia, um dos pontos da comunidade que enfrenta alagamentos e problemas de infraestrutura. Nos períodos de chuvas intensas, Gildevania sofre com a casa invadindo as casas de onde mora.


“Todo ano é a mesma coisa, chove e a água escorre aqui pra dentro e as pessoas perdendo tudo pelo que trabalharam o ano inteiro. é muito triste a gente ter que passar por isso, ver nossos vizinhos tendo que se recompor e a gente tem que ir se ajudando.” relata Gildevania, 51, moradora da Viela Santa Luzia, um dos pontos de Heliópolis que enfrenta constantemente alagamentos nos períodos de chuva intensa. 

 

Essa ausência de informações também interfere na capacidade de prevenção. Quando os pontos de alagamento, sobretudo de territórios periféricos, não aparecem nos dados utilizados pelo poder público, torna-se mais difícil planejar obras de drenagem, identificar áreas de maior risco e desenvolver medidas de adaptação para eventos de chuva cada vez mais intensos. Essa ausência de informações também interfere na capacidade de prevenção e no processo de reivindicações de políticas públicas que considerem aquilo que os moradores já identificam e enfrentam no dia a dia.

 

“Tem muita gente aqui pra dentro que passa pela mesma coisa.” diz Gildevania. “A gente só queria uma política de saneamento adequado que hoje não tem, a gente dorme com o cheiro da fossa e do esgoto porque não tem canalização.”

 

Realizado em 2025, o projeto Diagnóstico Territorial Colaborativo desenvolveu uma cartilha com dados produzidos pelo próprio território, reforçando aquilo que os próprios moradores já identificam no cotidiano. Na cartilha, 82% dos moradores entrevistados acreditam que Heliópolis não recebe a mesma atenção do poder público quando comparada a outras regiões da cidade. Entre os principais problemas relacionados à moradia, infraestrutura e meio ambiente, 54% citaram a falta de árvores e de áreas verdes, e 49% apontam a ocorrência frequente de enchentes e alagamentos.

 

“Se não fosse a gente cuidando um do outro já estaríamos perdidos, porque o poder público não se preocupa com quem mora aqui e a gente sonha em morar melhor.” completa Gildevania.

 
 
 

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