Caminhada pela Paz reafirma luta por direitos no São Savério, Parque Bristol e região
- Escrito por Marcela Muniz | Editor Douglas Cavalcante
- há 1 dia
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Atualizado: há 11 horas
Em sua 16ª edição, iniciativa reúne moradores e lideranças para reivindicar políticas públicas e melhorias para o território
A luta comunitária por direitos está historicamente ligada às melhorias e evoluções que acontecem nos territórios periféricos. A necessidade de mobilização em rede dentro das comunidades torna-se cada vez mais evidente para garantir direitos ainda ausentes. Na Região, como é chamada a extensão das favelas localizadas no entorno de Heliópolis, não é diferente: a negligência do poder público contra a população periférica têm exigido que os moradores do Jardim São Savério, Parque Bristol e Boqueirão, por exemplo, se mobilizem para promover mudanças significativas em suas realidades.
A Caminhada Pela Paz da Região, realizada desde 2010 neste território, tem sido uma ferramenta de fortalecimento dessa luta e de articulação da rede para a reivindicação dos direitos. Originada a partir do evento de mesmo nome realizado em Heliópolis, onde a iniciativa começou, a 16ª edição da Caminhada na Região aconteceu nesta sexta-feira (21). A concentração teve início às 13 horas, na Escola Estadual Dr. Álvaro de Souza Lima e, este ano, teve como tema “Construindo a paz com justiça social, educação e respeito à vida”.

Jaqueline Dantas, 39, gestora do SASF (Serviço de Assistência Social à Família) Chico Mendes e integrante da organização da Caminhada, reflete sobre a forma como o evento atua para estimular a participação da comunidade sobre a importância de se mobilizar. “A Caminhada tem o papel de, principalmente, mostrar que estamos juntos. Que devemos lutar juntos e precisamos estar ali nos apoiando”. Ela também percebe o evento como um espaço para voltar a atenção para o local. “É quando podemos discutir sobre as mazelas, as dificuldades que o bairro está enfrentando, a partir de um olhar humanizado”.
A visão de Jaqueline sobre a edição atual dialoga com os ideais que estimularam a primeira edição da Caminhada. Sandra Soares, 70, gestora do CEI (Centro de Educação Infantil) Frei Sérgio, foi uma das lideranças do Jardim São Savério que identificaram a demanda no território. Ela conta que o principal objetivo da Caminhada, desde a sua idealização, sempre esteve relacionado com a necessidade de analisar as questões que os afetavam. “Era uma comunidade que não tinha muitas políticas públicas. A gente tinha que olhar mais para as vulnerabilidades sociais desse local”.
Sandra lembra que, durante cinco meses, foram realizados encontros com lideranças para discutir ações voltadas à melhoria das condições de vida nas favelas como o Jardim São Savério. Ela destaca que a ideia de replicar a Caminhada na Região partiu da reflexão sobre o que a própria comunidade poderia fazer para mudar a sua realidade. “Na época, precisávamos reivindicar o São Savério em todos os sentidos: moradia, saúde, educação. E qual era o jeito da gente provocar isso? Trazendo a Caminhada da Paz para cá”.
Hoje, após 16 anos, Jaqueline destaca que a Caminhada Pela Paz no São Savério, Parque Bristol e região possibilita o retrato da imagem dessas comunidades como resistência e potência. Para Sandra, o principal impacto evidente é a implementação de novos projetos da UNAS desde a primeira edição da iniciativa no território. Equipamentos sociais como o próprio CEI Frei Sérgio (que na época existia, mas não era gerenciado pela UNAS) ou os CCAs (Centros para Crianças e Adolescentes) como o Plácido de Souza Filho ou Georgina do Carmo Moreira, são exemplos de conquistas impulsionadas pela realização de um evento que expõe as demandas locais. “Com a Caminhada aqui pudemos trazer tudo isso para cá para poder atender as famílias de vulnerabilidade social e atender as camadas que a gente mais precisa estar olhando”, reflete Sandra.

“É a hora em que vamos para a rua gritar ‘Temos direitos! E Vamos lutar para que os direitos sejam garantidos!’”
Sandra Soares, gestora do CEI Frei Sérgio
Mesmo com os avanços locais proporcionados pela iniciativa comunitária, lideranças da Região identificam que ainda há muito para ser alcançado. Para Luciana Aguiar, 52, coordenadora pedagógica do CCA Plácido de Souza Filho, a continuidade das conquistas depende justamente da capacidade de reconhecer a força da mobilização que já transformou essas realidades. “Seria muito bom ter aqui uma comunidade que colhesse seus próprios frutos através da luta e que entendesse que o trabalho que conseguiu o que temos aqui, ainda pode conseguir mais”, afirma. Para ela, porém, a articulação entre os moradores ainda precisa ser fortalecida. “Ainda falta nos articularmos para termos uma mudança”, completa.
Para a gestora, o crescimento das favelas que compõem a Região não tem sido acompanhado pela ampliação de estruturas capazes de garantir qualidade de vida aos moradores. “Estamos em um local que tem muita moradia, e avançamos nisso, mas não tem, por exemplo, uma praça para lazer ou um projeto social para idosos”, aponta. Ela define o processo como um crescimento que acontece ‘para fora’, sem necessariamente responder às demandas de quem vive no território. “É um bairro que está crescendo ‘para fora’, sem dar sustentabilidade às pessoas. É um crescimento que não traz essas questões [de violação de direitos]”, afirma.
A escolha da Escola Estadual Dr. Álvaro de Souza Lima como ponto de concentração da Caminhada Pela Paz da Região, desde a sua primeira edição, também esteve relacionada a essa necessidade de fortalecer a identificação dos moradores com a própria comunidade. Segundo Sandra, a escola foi escolhida na época para ser reivindicada como um espaço para os próprios moradores. “Era uma escola que está localizada no Savério, mas nem todas as crianças que estudam lá são do Savério. É algo para promover esse reconhecimento e identificação de algo que é desses moradores”, explica.
A Caminhada Pela Paz do São Savério, Parque Bristol e região reúne anualmente moradores, lideranças, trabalhadores e equipamentos sociais e públicos para percorrer as ruas das comunidades. O tema deste ano coloca em evidência uma paz que ultrapassa a ausência de violência, mas olha para o acesso a direitos e para a participação dos moradores nas decisões que afetam as favelas. É justamente nesse sentido que Sandra defende que a articulação precisa partir de quem conhece as necessidades locais. “Nenhum governo vem aqui para chamar nossa comunidade para nos dizer: ‘Você tem direito, lute por eles’. Precisamos de uma articulação forte com os moradores”, afirma. Para ela, a construção de mudanças não pode acontecer de maneira isolada ou apenas a partir das instituições. “Nós [enquanto UNAS] precisamos fazer a mudança. Mas é uma mudança que tem que ser feita não para os moradores, mas com os moradores”.
Para além da mobilização comunitária, Sandra acredita que a dificuldade de avançar em determinadas demandas está relacionada à falta de investimentos públicos e de iniciativas que considerem as necessidades específicas da população. “Moro aqui há 32 anos e percebo que não há avanço do governo, nem municipal nem estadual. Aqui não há investimento. E, se nós que estamos na base não pensarmos nisso, a gente não vai conseguir mudar o nosso território”, avalia. Para Jaqueline, existe um distanciamento entre as demandas apresentadas pela população e as decisões tomadas pela administração pública. “É frustrante lutarmos e querermos fazer um bom trabalho mas, em contrapartida, ter um governo municipal e secretarias que vão em sentido completamente contrário ao que a gente acredita”, afirma.
Sandra reflete que a urgência está em fazer com que as mudanças aconteçam em um prazo que acompanhe as necessidades de quem vive na Região. “Estamos em um território onde precisamos pensar muito [nas melhorias], mas para um futuro breve, não pode ser um futuro a longo prazo”, ressalta. A 16ª Caminhada Pela Paz da Região, nesse sentido, reafirma uma reivindicação que atravessa sua história: a de que a construção de um território mais justo depende da participação daqueles que vivem nele e da capacidade de transformar mobilização em políticas públicas e direitos efetivamente garantidos.































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