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Projeto "Violência Aqui Não Entra Não" fortalece a rede de proteção infantil após 10 anos de atuação

Escrito por André Silva | Editor Douglas Cavalcante
há 7 horas
5 min de leitura

Ao longo uma década, projeto deixa legado de metodologias, materiais de apoio e experiências construídas em defesa de crianças. adolescentes e famílias


Ao longo de sua atuação em Heliópolis e nas regiões do entorno, a UNAS compreende que a proteção infantil também passa pela criação de espaços onde crianças e adolescentes possam conhecer seus direitos, construir vínculos de confiança e reconhecer onde buscar apoio diante de uma situação de violência. Esse compromisso atravessa o trabalho desenvolvido nos Centros de Educação Infantil (CEIs) e nos Centros para Crianças e Adolescentes (CCAs) geridos pela organização e também se desdobra em iniciativas voltadas especificamente à prevenção e ao enfrentamento das violências, como o NAPSI e o SPVV Curumins do Brasil.


Compondo essa rede de proteção está também o projeto Violência Aqui Não Entra Não! (VANEN), desenvolvido pela UNAS desde março de 2016 em parceria com a organização alemã Kindernothilfe. Ao longo de dez anos, o projeto ampliou o trabalho de prevenção e enfrentamento às violências contra crianças e adolescentes para diferentes regiões do Fundão do Ipiranga.


Em seus primeiros anos, o VANEN concentrou sua atuação no contato direto com crianças e adolescentes — e com suas famílias — atendidos pelos CCAs Izaura, na Favela do Boqueirão; o CCA Georgina do Carmo, no Jardim Maristela; o CCA Plácido, no Jardim São Savério; e o CCA Aziz Ab'Saber, na Cursino. Além do acompanhamento, o projeto investiu na formação de educadores sociais a partir de uma política de proteção infantil, fortalecendo esses profissionais como referências de confiança e contribuindo para a articulação entre os diferentes serviços que integram a rede de proteção nesses territórios.

Nesse período, o VANEN desenvolveu oficinas, formações e outras atividades voltadas à discussão das diferentes formas de violência e dos caminhos possíveis para buscar apoio e proteção. Paralelamente, o trabalho desenvolvido com as famílias e com os educadores buscou reforçar a importância da prevenção, da escuta e da identificação de sinais de violência, ampliando o papel da comunidade no reconhecimento e no enfrentamento de situações de risco.


A partir dessas experiências, o projeto passou a sistematizar os conhecimentos e metodologias construídas ao longo de sua atuação, buscando ampliar seu alcance entre outros profissionais, crianças e adolescentes. Em 2019, o projeto desenvolveu a cartilha Violência Aqui Não Entra Não!, reunindo práticas e metodologias desenvolvidas ao longo dos primeiros anos voltadas ao rompimento dos ciclos de violência, à reparação e à ressignificação dos traumas e ao fortalecimento da rede de proteção.



Em 2020, as atividades realizadas com as crianças dentro dos CCAs deram origem ao jogoCaminhar com Segurança, criado como uma ferramenta para abordar situações de risco de maneira lúdica e acessível. Ao longo da partida, crianças e adolescentes se deparam com situações relacionadas à saúde, ao direito de caminhar com segurança, à amizade e à solidariedade, além de discutirem formas de prevenção e enfrentamento às violências.


Ainda em 2020, foi lançado o gibiA Super Rede, desenvolvido com a participação das crianças atendidas pelo VANEN, que escolheram os super-heróis para representar a Rede de Proteção Infantil, formada por serviços das áreas de educação, saúde, assistência social e segurança pública que atuam na garantia dos direitos de crianças e adolescentes.


Com o início da pandemia da COVID-19, em 2020, e a suspensão das atividades presenciais nos CCAs, o Violência Aqui Não Entra Não, também precisou adaptar sua forma de acompanhar as famílias atendidas pelo projeto. Diante do período de isolamento social e das dificuldades enfrentadas nos territórios do Fundão do Ipiranga - como a escassez de informações e de políticas de enfrentamento à COVID-19 - foram realizadas ações de apoio às famílias, com a distribuição de cestas básicas, kits de higiene e outros itens necessários para o enfrentamento da pandemia. Além do apoio, o projeto buscou manter o vínculo com as crianças e adolescentes durante o período em que permaneceram afastados dos espaços de convivência em um período em que se encontram mais vulneráveis às violências domésticas e também de casos subnotificados. 


Após cinco anos de trabalho mais próximo das crianças, adolescentes, famílias e dos educadores dos CCAs, o projeto passou a ampliar seu olhar para os territórios onde essas pessoas estão inseridas. A proposta era compreender que a proteção infantil não se restringia aos espaços dos projetos ou aos equipamentos públicos, mas também dependia das relações construídas no cotidiano e da existência de referências de apoio próximas às crianças. É neste contexto que surge em 2023 o estudo “Quebrada Segura para Crianças”, realizado, em parceria com o Observatório De Olho na Quebrada, nos territórios do Jardim São Savério, Jardim Maria Estela, Água Funda e no Boqueirão. Ao todo, 250 crianças e adolescentes, participaram das atividades contribuindo para a construção de mapas afetivos que ajudaram a identificar, a partir do olhar de quem vive esses territórios, os espaços considerados seguros e aqueles onde existiam situações de vulnerabilidade. Neste mesmo ano, o VANEN chama a atenção para o Dia da Proteção Infantil com o objetivo de que a rede e a comunidade sejam parceiras no enfrentamento das diversas violências, tendo como finalidade a construção de um bairro articulado com os serviços de saúde, educação, assistência social, segurança pública e de toda a rede em prol dos direitos e da proteção infantil. A proposta foi apresentada ao poder público para ser inserida no calendário municipal de São Paulo e segue sendo discutida como a PL 94/2024 do vereador Manoel Del Rio.


Em 2025, o VANEN fortaleceu ainda mais as ações de diálogo e cuidado relacionadas à proteção de crianças e adolescentes. Em articulação com as atividades do Setembro Amarelo, o projeto desenvolveu iniciativas direcionadas aos públicos dos CCAs, buscando abordar o tema de maneira acessível, lúdica e acolhedora. Desse trabalho nasceram as cartilhas “Tons de Amarelo”, pensada para as crianças, e “Todo mundo tem alguém”, elaborada para os adolescentes. Os materiais apresentaram caminhos para buscar apoio e identificarem pessoas de confiança e espaços seguros que poderiam ser procurados diante de situações de risco.


Encerrado no primeiro semestre deste ano, o projeto Violência Aqui Não Entra Não! deixa como legado metodologias, materiais de apoio e experiências construídas junto às crianças, adolescentes, famílias, educadores e profissionais que integram a rede de proteção infantil. Ao longo desses dez anos, o VANEN contribuiu para ampliar o debate sobre as diferentes formas de violência e, sobretudo, para fortalecer a compreensão de que a proteção infantil é uma responsabilidade compartilhada entre os serviços de atendimento, as organizações sociais, as famílias e todos aqueles que vivem o território.


Mais do que concentrar suas ações na identificação de situações de violência, o VANEN buscou criar condições para que crianças e adolescentes reconhecem seus direitos, soubessem onde buscar apoio e participassem  da construção de um espaço mais seguro. Mesmo com o encerramento do projeto, as práticas, articulações e ferramentas desenvolvidas ao longo desses dez anos permanecem presentes ao trabalho da UNAS e à rede construída nos territórios, dando continuidade a um compromisso que não se encerra com o fim do projeto.


 
 
 

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