Semana dos Direitos Humanos leva debate sobre cidadania para Heliópolis e Região
- Escrito por Marcela Muniz | Editor Douglas Cavalcante
- há 4 horas
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Iniciativa da UNAS reúne atividades que mostram como cultura, participação e mobilização podem transformar o acesso à direitos na comunidade
Entre os dias 24 e 28 de agosto, os projetos sociais e equipamentos da UNAS em Heliópolis e nas comunidades do entorno realizaram mais uma Semana dos Direitos Humanos, iniciativa que reúne diferentes espaços do território em torno de atividades de formação, reflexão, expressão artística e acesso a direitos. A realização da Semana parte de uma característica histórica de Heliópolis: a construção do território está diretamente relacionada à mobilização de seus moradores pela garantia de direitos.
As atividades realizadas durante os cinco dias buscam intensificar esse debate a partir de diferentes linguagens e experiências, aproximando crianças, adolescentes, jovens e famílias da discussão sobre cidadania, políticas públicas e participação comunitária. A proposta também parte da reflexão sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, especialmente seu primeiro artigo, que estabelece que todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos.

Arte como caminho para falar de direitos
No primeiro dia da programação, o CCA (Centro para Crianças e Adolescentes) Lagoa recebeu o CCA Parceiros para uma atividade de Slam com o grupo 1º Ato Slam. A programação contou com uma oficina de poesia e produção de fanzines, utilizando a expressão artística como forma de aproximar crianças e adolescentes de discussões sobre direitos humanos, deveres e cidadania.
Para Matriarcak, 30 anos, artista e integrante do grupo 1º Ato Slam, a linguagem artística possibilita que assuntos tradicionalmente tratados de maneira formal sejam apresentados de uma forma mais próxima da realidade dos jovens. “O slam permite que a gente trabalhe os direitos humanos, os deveres, a cidadania, de uma forma mais artística, de uma forma mais poética, de uma forma até mais impactante”, afirma.
A aproximação com a juventude ganha ainda mais importância diante da presença cotidiana das redes sociais e da internet. Segundo Matriarcak, a poesia falada cria uma possibilidade de diálogo que foge de uma abordagem considerada distante pelos adolescentes. “Acredito que o slam e a poesia falada conseguem aproximar a juventude desse tipo de debate sem ser de uma forma tão tradicional, coloquial, e sem ser aquela coisa que eles vão ver como chata”, explica.
Para ela, a arte também permite que os jovens reconheçam a própria capacidade de expressão. “Nessa época em que estamos dividindo espaço com a internet, usar a poesia para conversar com os adolescentes é de extrema importância, porque eles veem que, a partir da arte, eles também conseguem se expressar, e como se sentem, inclusive, sobre os seus direitos da cidadania”, completa.
A atividade também evidencia uma das perspectivas que orientam a Semana: discutir direitos humanos não apenas como um conteúdo, mas como parte da formação de sujeitos capazes de reconhecer e reivindicar seus direitos. “O motivo de ser necessário realizar essa semana é que eles [as crianças e os adolescentes] são o futuro. Estamos formando cidadãos”, afirma Matriarcak.
Quem vive a realidade também constrói soluções
A participação dos adolescentes na construção das atividades foi um dos elementos centrais do segundo dia da programação. No CCA Imperador, os próprios adolescentes escolheram os convidados e definiram o tema do encontro: “Quem vive a realidade, também constrói soluções”.
A discussão surgiu a partir de rodas de conversa nas quais os adolescentes relataram a percepção de que, no território dos Pilões, núcleo onde está localizado o CCA, ‘nada chegava para eles’. A partir dos questionamentos, o grupo passou a observar as conquistas já existentes na região e refletir sobre como muitas delas foram resultado da mobilização dos próprios moradores para garantir direitos.
Para Érica Rodrigues, 34 anos, educadora do CCA Imperador, a experiência cotidiana do território demonstra que a transformação também pode partir da própria comunidade. Ela cita como exemplo uma situação relacionada ao descarte de lixo em frente ao equipamento. “A gente tinha muito a questão do lixo da frente do CCA e, conversando com a comunidade, uma das lideranças daqui colocou uma caçamba na frente do CCA, o que melhorou muito o descarte do lixo”, conta.
A experiência ajudou a mostrar aos adolescentes que a garantia de direitos não depende exclusivamente da atuação do poder público. “Entendemos que as pessoas que estão aqui dentro [da favela] também conseguem fazer a diferença, não necessariamente só o poder público. Não podemos esperar só cair do céu a solução, também conseguimos ir atrás”, afirma Érica.
A reflexão sobre as conquistas do território também permite que os adolescentes percebam a luta comunitária como um processo contínuo. “Trabalhando a temática de Direitos Humanos com eles de uma forma mais lúdica, a gente vê que, desde pequeno, eles já têm essa consciência de que se eles não forem atrás, não lutarem, dificilmente as coisas chegam aqui”, explica.
Para a coordenadora, quando os direitos são apresentados a partir de situações concretas, eles deixam de ser conceitos abstratos. “Parece que eles visualizam melhor, parece que eles apalpam os direitos que eles têm. Eles entendem que não é só uma luta de um dia, não é só quando estão numa ação de rua. É no dia a dia mesmo”, afirma.
Nesse sentido, a Semana funciona como um momento de intensificação de um trabalho que acontece continuamente nos projetos da UNAS. O objetivo vai além de apresentar quais são os direitos, e fortalece a capacidade de crianças e adolescentes de reconhecê-los e lutar por sua garantia. “Quando eles têm acesso aos seus direitos, isso ajuda a fortalecer a luta, porque os adolescentes ficam mais empoderados”, diz Érica.
Segundo ela, envolver as novas gerações também amplia a força da mobilização comunitária. “Quando temos crianças mais empoderadas, a gente tem pessoas que fazem essa transformação desde os pequenininhos. Não precisamos esperar os mais velhos, que já estavam aqui lutando. Temos mais força para lutar, com as crianças e com os adolescentes”, completa.
O direito à saúde na prática
A discussão sobre direitos humanos também esteve presente em atividades voltadas diretamente às famílias atendidas pelos serviços de assistência social. No SASF (Serviço de Assistência Social às Famílias) Chico Mendes, a programação contou com um aulão de alongamento e dança conduzido pelo professor Ricco Veríssimo, além de uma Roda de Conversa sobre o Direito à Saúde.
A atividade buscou apresentar o direito de forma prática, relacionando a discussão sobre saúde ao acesso a atividades que contribuem para o bem-estar e a qualidade de vida das famílias. Maria Auxiliadora Alves, 77 anos, atendida pelo SASF, participou da atividade e destacou que o direito à saúde vai além do atendimento médico. “As pessoas devem ter o direito de saúde, não só através dos médicos, mas esses exercícios também que fazemos aqui e são muito bons”, afirma.
Para ela, conhecer os próprios direitos também é uma forma de fortalecer a participação da população. “É importante que a gente saiba sobre os nossos direitos, porque às vezes a gente fica na ignorância por pensar que não estão dando muita importância para a gente e para os nossos direitos”, relata.
A necessidade de aproximar a discussão da realidade das famílias é destacada por Denise Brasileiro, 35 anos, orientadora socioeducativa no SASF. “Precisamos explicar e fortalecer o que são os direitos humanos para essas famílias que atendemos”, afirma. Para Denise, discutir direitos também significa refletir sobre as políticas públicas disponíveis no território e sobre a mobilização necessária para garantir que elas sejam efetivadas. “Quando a gente fala sobre os direitos humanos, a gente reflete sobre o que acontece com as políticas públicas, sempre pensando no movimento e na luta para ter esse espaço para eles aqui”, explica.
Literatura para construir novos olhares
A programação também levou a discussão sobre direitos para o campo da cultura. A Biblioteca Comunitária de Heliópolis recebeu adolescentes do projeto Garoto Cidadão 14+ para um encontro sobre literatura periférica com o poeta Paulo Rams.
O encontro foi construído como um espaço de troca, reflexão e expressão, aproximando os adolescentes da produção literária periférica e mostrando como a literatura pode dar visibilidade às experiências das comunidades. A atuação da Biblioteca Comunitária de Heliópolis parte justamente da compreensão da cultura como um direito, ampliando o acesso à literatura e apresentando aos jovens produções que dialogam diretamente com suas vivências.
Para Rihanna Rosa de Jesus Rocha, 18 anos, integrante do projeto Garoto Cidadão 14+, conhecer a trajetória de um artista periférico possui um significado particular. “Para mim, sendo uma jovem periférica, é importante a gente conhecer a história do Paulo. É uma grande inspiração, porque eu também sou artista, sou atriz e eu também gosto muito de escrever”, afirma.
A discussão sobre literatura também se relaciona com o direito à educação e à cultura, especialmente diante das desigualdades de acesso enfrentadas pelas favelas. “Infelizmente, no nosso país, acontece uma grande questão nas periferias que é o difícil acesso à educação. E é importante trazer o direito à literatura, para que a gente tenha acesso à cultura e à educação também”, explica Rihanna. A jovem também destaca que possuir a favela como lugar de origem, não significa estar fora da garantia de direitos. “Por mais que a gente seja periférico, por mais que a gente esteja à margem da sociedade, também temos direitos, também somos pessoas”, afirma.
Para ela, o questionamento é uma ferramenta para compreender a própria realidade e identificar os direitos que precisam ser reivindicados. “Eu sou muito perguntadeira e gosto de questionar as coisas. E temos que questionar para que a gente conheça os nossos direitos, a nossa realidade”, diz.
A reflexão também parte de sua própria experiência e da multiplicidade de identidades que atravessam sua vivência. “Eu como jovem, mulher, preta, periférica, neurodivergente, membra da comunidade LGBTQIAPN+, acredito que é essencial conhecer os meus direitos para que eu possa lutar por eles, e para que eu possa ter a garantia de que eles vão estar sendo cumpridos”, completa.
Uma semana para fortalecer a luta
A diversidade de atividades realizadas entre os dias 24 e 28 de agosto revela uma característica central da Semana dos Direitos Humanos: a discussão sobre direitos não está restrita a um único espaço ou linguagem. Slam, poesia, fanzines, rodas de conversa, dança, alongamento e literatura tornam-se caminhos diferentes para tratar de uma mesma questão: o reconhecimento dos direitos e a capacidade da comunidade de lutar por sua garantia.
Criada em 2015, a Semana surgiu a partir da identificação, entre gestores e diretores da organização, da necessidade de estabelecer um calendário unificado de ações entre projetos, escolas e segmentos que atuam em Heliópolis e nas comunidades do entorno. Ao longo dos anos, a iniciativa passou a integrar o trabalho da UNAS como uma ferramenta de fortalecimento da consciência comunitária e da luta por direitos humanos no território. Ao reunir projetos sociais, equipamentos, trabalhadores, crianças, adolescentes, jovens e famílias, a iniciativa transforma diferentes espaços do território em lugares de formação e participação.
Em Heliópolis e nas comunidades do entorno, onde muitas das conquistas sociais foram construídas a partir da mobilização dos próprios moradores, falar sobre direitos humanos também significa falar sobre a história do território. As atividades da Semana retomam essa trajetória e ajudam a construir uma nova geração capaz de reconhecer as conquistas já alcançadas, identificar os direitos ainda não garantidos e compreender que a transformação depende também da participação comunitária.































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