Moradores de Heliópolis ficam cinco dias sem água e denunciam descaso
- Escrito por Marcela Muniz | Editor Douglas Cavalcante
- há 3 horas
- 5 min de leitura
Dois anos após privatização pelo Governo do Estado, população cobra: onde está a melhoria prometida pela Sabesp?

Entre os dias 26 e 31 de agosto, moradores de Heliópolis relataram a falta de fornecimento de água em suas residências. O serviço foi interrompido por cerca de 5 dias e, em alguns locais, só foi normalizado na tarde do dia 1º de setembro, segundo relatos de moradores. As rotinas de centenas de famílias foram impactadas pela ausência do recurso e de informações ou respostas por parte da SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) sobre o ocorrido. Durante o período de quase uma semana, os moradores enfrentaram diversos transtornos para efetivar ações básicas do dia a dia, como alimentação, higiene pessoal, e até em suas atividades profissionais.
Maria Aucileide Alves, é moradora de Heliópolis e foi impactada pela falha no atendimento da Companhia na comunidade. Ela conta que, ao perceber a falta de água, reportou a situação pelo aplicativo da SABESP. “Dentro do aplicativo, eu comunico a falta de água e aparece um prazo. Lá [no aplicativo] não dão opção de entender o motivo”, relata. Após reportar o erro na plataforma, no dia 26, Aucileide recebeu a promessa de normalização do serviço já para o dia seguinte, o que não se concretizou. Durante os quatro dias que seguiram, a moradora permaneceu reportando a situação pelo app, que sempre apresentava uma previsão para o dia seguinte.
Para ela, o que agravou a situação foi o descaso da empresa com os moradores ao não compartilhar informações de forma transparente sobre o que estava acontecendo durante os cinco dias. “Se eles deram o primeiro prazo, no mínimo eles tinham que ter cumprido. Não cumpriu? Pelo menos falar: ‘não conseguimos, está mais difícil do que a gente imaginava’. Ser sincero”. Aucileide também compartilha que os moradores chegaram a solicitar soluções temporárias, mas que também não foram atendidos. “A gente pediu um caminhão-pipa, que falaram que iria para análise, mas não tivemos nenhuma resposta”.

A alternativa de amparo para os moradores que passaram os cinco dias sem água não surgiu da Companhia ou do Estado. Aucileide conta que uma moradora da região, que não sofreu alteração no fornecimento da água, disponibilizou uma mangueira para uso livre dos vizinhos no sábado. “A fila estava anormal. Parecia aqueles registros da seca de 70, lá no Nordeste, que o povo não tinha água. Dava a entender que a gente estava vivendo aquilo de novo”.
Márcia Bezerra, empreendedora de um salão de beleza em Heliópolis e uma das moradoras prejudicadas, possui uma perspectiva semelhante à de Aucileide sobre a falta de transparência da Companhia. “Não avisaram a gente que isso aconteceria, ou ao menos se desculparam. As informações que tínhamos, ficamos sabendo mais pelo ‘boca a boca’ do que por eles mesmos [da SABESP]”. Ela desabafa sobre o sentimento de injustiça ao ter um direito negligenciado, principalmente por ser algo que se transforma em uma despesa para que ele seja assegurado. “É assim: a gente só paga mesmo. Não tem direito a nada. Só temos direito a pagar. Não temos o direito nem de saber o porquê de estarmos passando por essa situação”.

Além da influência em sua rotina pessoal, Márcia reflete sobre a forma como os cinco dias sem fornecimento pela SABESP causaram um prejuízo em seu empreendimento. “Parei de trabalhar no sábado, porque não tinha nada de água. Eu não conseguia nem atender, porque não dava para lavar o cabelo no lavatório. Não podia fazer nada”. Ela questiona o contraste na postura da empresa que, mesmo realizando um serviço de forma ineficiente (que, muitas vezes, prejudica a fonte de renda dos moradores), não hesita em efetuar diversas cobranças nas faturas de utilização da água. “Minhas coisas [do salão] estavam lá, se eu trabalhei ou não, ninguém está nem aí para dar nenhum desconto. Me sinto totalmente lesada por conta disso. Pago direitinho todo mês, e ‘aí de mim’ se não pagar, né?”, desabafa.
A água só voltou a ser fornecida na noite do dia 31, cinco dias após o início dos relatos de interrupção. Segundo moradores, mesmo com o retorno do abastecimento, a água que chegou às torneiras apresentava sujeira e alteração na aparência. A situação então, nas casas de alguns moradores, só foi normalizada na tarde de 1º de setembro. Márcia compara a qualidade do serviço realizado pela empresa que, atualmente, apresenta mais falhas e insatisfação pela população, com o atendimento de alguns anos atrás, antes da efetivação da privatização da Companhia pelo Governo do Estado. “Antes, podia até faltar água. Mas, solucionavam o problema mais rápido. Agora parece que estamos ‘ao Deus dará’.”
A SABESP foi privatizada em julho de 2024, quando o governo do Estado de São Paulo deixou de ser o acionista controlador da Companhia. Dados da Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo) apontam para 12.498 reclamações sobre o serviço prestado pela SABESP, sendo problemas nas contas ou falta de água, em 2025. Em 2023, antes da concessão da empresa, as queixas estavam em torno de 3,7 mil, apresentando um aumento de cerca de 238% nos números atuais.
Um dos principais argumentos apresentados por Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador do Estado de São Paulo, em sua proposta de privatização da Companhia, foi a redução na tarifa paga pelo consumidor. No entanto, em janeiro de 2026, entrou em vigor o reajuste de 6,11% da tarifa básica de água, gerando aumento nos valores das contas de água pagas pela população. Em coletiva de imprensa realizada na tarde desta quinta-feira (03), o governador afirmou que “Não teve um acréscimo real de tarifa” e que não é possível uma tarifa permanecer “congelada eternamente”, mesmo após prometer o contrário sobre o processo de tornar a Companhia privada.
A visão de Márcia e Aucileide sobre a precariedade do atendimento realizado pela SABESP, em situações de reporte das falhas no serviço, não se limita apenas ao território de Heliópolis. Segundo dados disponibilizados na plataforma de reclamações do Procon-SP, a quantidade de relatos negativos sobre o atendimento da SABESP em 2025 foi quatro vezes maior do que o número apresentado antes de se tornar privada, em 2023. Foram 6.879 queixas de situações que não foram resolvidas na primeira tentativa de contato do órgão com a empresa.
“Você liga para pedir ajuda, falar de um problema na água e o pessoal [que atende] não está nem aí, sabe? A sensação que dá é que está fazendo pouco caso das pessoas”, reflete Márcia sobre situações em que precisou contatar o suporte da SABESP, para além da situação mais recente. Aucileide também compartilha da visão da empreendedora. “Depois que privatizou, você percebe que eles não têm uma vontade de nos atender, falar ‘vou atender bem’. Não tem.”
Em 2010, a Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) reconheceu o direito à água potável e limpa e o direito ao saneamento como direitos humanos essenciais. Ainda assim, 16 anos depois, o acesso à água ainda é excludente e possibilitado apenas por meio de pagamento, privando o direito das populações vulnerabilizadas. E, mesmo para aqueles que pagam pelo acesso, como em Heliópolis, ele não é garantido de forma efetiva.
Márcia expressa como este é mais um direito que parece exigir mobilização da população, principalmente periférica, para que seja cumprido. “Se eu pudesse, eu juntava um monte de gente e ia lá na Sabesp para ver se faziam alguma coisa para resolver nossa situação. A gente tem que gritar. Senão, não escutam a gente. A gente só é visto quando a gente faz barulho”.
Procurada pela reportagem, a SABESP informou que uma manutenção emergencial afetou o abastecimento em Heliópolis e afirmou que o serviço foi normalizado em 31 de agosto. A companhia, no entanto, não informou quantas residências foram afetadas, o número de reclamações registradas na região ou quais ações específicas foram realizadas em Heliópolis. Também não respondeu sobre as medidas adotadas para atender os moradores durante a interrupção.































Comentários