Seminário debate caminhos para fortalecer o Bairro Educador em Heliópolis
Evento promovido pela UNAS reuniu representantes de escolas, movimentos sociais e projetos em sete mesas temáticas sobre os desafios da comunidade
O Bairro Educador é o conceito que busca a transformação da realidade de Heliópolis e das favelas do entorno a partir de uma rede de educação integrada e coletiva, compreendendo as realidades do território para exercer essa educação. A construção e consolidação de um Bairro Educador depende da articulação entre os projetos sociais e os demais equipamentos que prestam atendimento, conectando os espaços educativos com o seu entorno. Com esse propósito, a UNAS realizou, nos dias 24 e 25 de setembro, o 17º Seminário Heliópolis e Região Bairro Educador. O encontro reuniu representantes de escolas, projetos sociais, movimentos sociais e serviços do território para debater questões que atravessam a educação e o cotidiano na comunidade.
Na noite de quinta-feira (24), a quadra da UNAS, localizada na Rua da Mina Central, foi palco para a Mesa de Abertura de mais uma edição do Seminário. Com a contribuição de diversas lideranças, o espaço foi um momento de introdução aos desafios abordados entre as sete mesas de debate dispersas pelo território na sexta-feira (25).
Os temas abordados, neste ano, foram: Democracia, participação e políticas públicas - Disputas e resistências; Participação social, juventudes e comunicação; Políticas intersetoriais de educação integral e Assistências (SUAS); Territórios que cuidam: gênero, inclusão e cuidado como proteção social; Natureza, clima e saúde nos territórios: A importância do Bairro Educador; Educação Antirracista, Ancestralidade e Território: compromisso coletivo com a equidade racial; Primeira Infância: proteção, atitude adulta e enfrentamento às violências.
Para Raphael Farias, coordenador da Equipe de Monitoramento e Avaliação dos Projetos e Serviços da UNAS, a realização do Seminário parte da necessidade de articular os diferentes atores e atendidos do território na construção do Bairro Educador. “Não dá pra falar de desenvolvimento territorial ou de grandes transformações se as pessoas que neste território estão inseridas não estiverem envolvidas”, afirma. A programação foi construída coletivamente, a partir das experiências e demandas identificadas por movimentos sociais, projetos e serviços da UNAS e escolas públicas da região. Para Raphael, essa diversidade é necessária porque a construção do Bairro Educador não pode ser feita por um grupo isolado.
As mesas temáticas estiveram espalhadas pelo território de Heliópolis, além da região do Parque Bristol, nos espaços de educação de referência nas comunidades. As EMEFs (Escolas Municipais de Ensino Fundamental) Presidente Campos Salles, Luiz Gonzaga do Nascimento Jr e Abraão Huck, o CEU (Centro Educacional Unificado) Parque Bristol, e o CEI (Centro de Educação Infantil) Margarida Maria Alves receberam cerca de 950 pessoas, no total, para a discussão dos desafios enfrentados no exercício da educação nestes espaços.
Produção de saberes no território
Entre os temas discutidos esteve a participação social das juventudes e a relação entre os conteúdos escolares e a realidade dos estudantes. A Mesa 2, idealizada pelo Observatório De Olho na Quebrada, partiu do encontro entre jovens, professores e educadores para identificar dificuldades relacionadas à forma como os conteúdos são trabalhados nas escolas. De acordo com João Victor Cruz, coordenador do Observatório, uma das questões percebidas durante essas conversas foi a distância entre os conteúdos escolares e o território. “Os jovens da comunidade estão destacando a automatização da educação e, nisso, os conteúdos não dialogam com o território”, afirma.
Para aproximar essas duas dimensões, a mesa apresentou projetos que já produzem conhecimento dentro da própria comunidade, atuando diretamente na educação da juventude, com a intenção de mostrar que experiências desenvolvidas nas periferias também podem contribuir para os processos educativos. “Não pensamos em levar nenhuma solução para como a educação pode ser pensada pelas escolas. Queremos que as experiências sirvam de insumo para criarmos soluções juntos”, aponta João Victor.
A proposta também rompeu com o formato tradicional de uma mesa de seminário. Em vez de apenas reunir convidados para uma sequência de falas, a programação contou com uma feira para apresentação dos projetos, seguida de um momento de debate. Para João, reconhecer quem já desenvolve trabalhos no território também significa valorizar o conhecimento produzido em Heliópolis. “Os debatedores são ‘de casa’. São pessoas que reconhecem o conhecimento territorial de quem já trabalha aqui e produz aqui, empoderando essas pessoas”, explica.
A discussão sobre educação integral também esteve presente na Mesa 3, que abordou a articulação entre educação, assistência social e outras políticas públicas. Patrícia Ramos, coordenadora do CCA (Centro para Crianças e Adolescentes) Izaura, destaca que a idealização da mesa partiu do princípio de que os desafios enfrentados por crianças, adolescentes, famílias e comunidade não podem ser solucionados por uma única política. Para ela, pensar em um Bairro Educador significa ampliar a compreensão sobre os espaços onde a educação acontece. “O território também educa, acolhe, protege, produz cultura, conhecimento e participação social”, afirma. A articulação entre as políticas, segundo Patrícia, contribui para fortalecer vínculos familiares e comunitários e ampliar o acesso aos direitos.
Educação atravessada por clima, raça e proteção
As mesas do seminário também levaram para o debate questões ambientais e de saúde acerca do território. A Mesa 5 foi realizada no CEI Margarida Maria Alves, gerenciado pela UNAS, e discutiu a relação entre natureza, crise climática e saúde a partir da realidade de Heliópolis. A discussão reuniu experiências do território, como o Observatório De Olho na Quebrada, a pesquisa-ação Cuidados do Verde para a Saúde e iniciativas de educação ambiental desenvolvidas em escolas e equipamentos locais. A proposta foi aproximar pesquisa, experiência comunitária e educação para pensar estratégias de cuidado diante dos impactos da crise climática. “Discutir clima, natureza e saúde nos ajuda a compreender como a crise climática afeta o lugar onde vivemos, além de reconhecermos desigualdades e participarmos da construção de soluções”, explica Marília.

Outra dimensão discutida foi a educação antirracista. A Mesa 6 abordou ancestralidade, equidade racial e território, relacionando essas questões às experiências vividas nas escolas e nos espaços comunitários. Wallace Lopes, integrante da equipe de Monitoramento e Avaliação da UNAS e um dos coordenadores do Movimento Negro de Heliópolis e Região, explica que a proposta surgiu da necessidade de tratar a educação antirracista como um compromisso que ultrapassa os limites da escola. O debate envolveu temas como racismo estrutural, representatividade, identidade afro-brasileira e práticas pedagógicas. “A educação antirracista vai somar, ela vai contribuir para que crianças, adolescentes, comunidade tenham esse encontro dos seus direitos, das suas histórias, desse processo de pertencimento e, de valorização”, afirma Wallace.
A mesa também reuniu diferentes áreas de atuação, como educação popular, movimento negro, história, políticas públicas e defesa dos direitos de crianças e adolescentes. Para Wallace, essa diversidade permite relacionar as experiências comunitárias às responsabilidades do poder público e de outras instituições no enfrentamento das desigualdades raciais.
Na Mesa 7, o debate sobre a primeira infância, a proteção e o enfrentamento às violências foi construído a partir da participação de profissionais dos CEIs, CCAs e projetos sociais da UNAS, além das escolas públicas de Heliópolis e Região. Para Cláudia Soares, coordenadora de Acompanhamento Pedagógico dos CEIs administrados pela UNAS, os temas escolhidos para o seminário estão relacionados às situações vivenciadas diariamente no território. “Todos os temas são importantes para a construção do bairro educador porque todos os temas têm uma interseccionalidade voltada à questão da educação e o que perpassa o cotidiano da educação todos os dias nesse território”, afirma.
A continuidade do seminário também é apontada pelos organizadores como parte do processo de construção do Bairro Educador. Para Raphael, chegar à 17ª edição representa a continuidade de uma mobilização pela garantia de direitos. “Por 17 anos, estamos aí na luta pela garantia de direitos, muito nós já alcançamos, mas muito ainda precisamos alcançar”, afirma.































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