O voto da quebrada: uma análise sobre a votação no primeiro turno em Heliópolis e região
Enquanto Flávio Bolsonaro venceu com folga no estado de São Paulo, Heliópolis e comunidades da região, na zona sudeste da capital paulista, deram a Lula 3.814 votos de vantagem no primeiro turno. A dois dias da decisão, a reportagem reúne dados eleitorais, a história do território, as políticas públicas em jogo e as propostas dos dois candidatos para ajudar o eleitor a decidir com informação.
No início dos anos 1970, cerca de 150 famílias que viviam em favelas da Vila Prudente e do Vergueiro foram transferidas pela prefeitura de São Paulo para alojamentos provisórios em uma área pública no Sacomã, a cerca de oito quilômetros do centro da cidade. Com aproximadamente um milhão de metros quadrados, o terreno pertencia ao órgão federal de previdência social, que já havia construído ali o Hospital Heliópolis. O que deveria ser temporário, porém, tornou-se permanente. A proximidade com o centro, as oportunidades de trabalho e o acesso às linhas de ônibus atraíram novas famílias, muitas delas migrantes da região Nordeste. Assim nasceu Heliópolis, hoje uma das maiores favelas da capital paulista, lar de dezenas de milhares de pessoas.
Mas ocupar o território foi apenas o começo, e permanecer nele exigiu luta. Nas décadas de 1970 e 1980, os moradores enfrentaram ameaças de despejo, grileiros que vendiam terrenos alheios e episódios de violência. Em 1978, ainda durante a ditadura militar (1964–1985), um grupo de moradores formou a comissão que daria origem à União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (UNAS). A reivindicação era fundamental: o direito de permanecer no território e de viver com dignidade.

Ao longo das décadas, a organização popular transformou essa reivindicação em conquistas concretas. Em Heliópolis e nos bairros vizinhos, como Jardim São Savério, Parque Bristol e Boqueirão, serviços e estruturas hoje considerados básicos resultaram de mobilizações coletivas. Água encanada, energia elétrica, saneamento, abertura de ruas, creches, escolas e até o reconhecimento oficial dos endereços foram conquistados por meio de mutirões, abaixo-assinados, mobilizações em órgãos públicos e longas negociações com governos de diferentes partidos. A história do território mostra que direitos raramente chegam por acaso: muitas vezes, são fruto da pressão organizada de quem não aceita viver sem eles.
A Constituição Federal de 1988 fortaleceu juridicamente parte dessa luta ao reconhecer a função social da propriedade e estabelecer instrumentos para a política urbana. Com o tempo, programas de urbanização e regularização fundiária também chegaram ao território. Heliópolis consolidou ainda o projeto de Bairro Educador, que articula educação, cultura e organização comunitária. Em julho de 2026, após mais de cinco décadas de mobilização, moradores conquistaram o direito à escritura de suas casas. A trajetória de Heliópolis é, assim, também a história de uma população que se organizou para reivindicar direitos e participar das decisões sobre o lugar onde vive.
Essa experiência deixou uma marca que atravessa gerações: a política não acontece apenas nas urnas. Ela também está nas reuniões de bairro, nas reivindicações por serviços públicos, nas negociações com o poder público e na disputa pelos rumos da cidade. O voto é mais um instrumento dessa luta.
É nesse território, construído por décadas de mobilização coletiva, que a eleição presidencial chega ao segundo turno com uma disputa acirrada. Na votação de 4 de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), de esquerda, que busca um quarto mandato, recebeu 44,2% dos votos válidos nas três zonas eleitorais que atendem a região. O senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), de direita e filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, obteve 43,1%. Apenas 3.814 votos separaram os dois candidatos.
O resultado local contrasta com o cenário estadual. Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, Flávio Bolsonaro recebeu 51,9% dos votos válidos, contra 38,2% de Lula — uma vantagem superior a 3,4 milhões de votos. No resultado nacional, o senador também terminou o primeiro turno à frente, com 47,0%, enquanto Lula obteve 45,2%.
O que esses números revelam sobre Heliópolis e os bairros de seu entorno? Como compreender as escolhas eleitorais de um território cuja história é marcada pela organização popular e pela luta por direitos? E, diante de propostas políticas distintas, o que significa votar com consciência?
Esta reportagem busca responder a essas perguntas a partir dos resultados das urnas, da história da comunidade e das propostas dos dois candidatos à Presidência. O objetivo não é dizer ao leitor em quem votar, mas oferecer informações para que cada pessoa possa avaliar o que está em jogo, confrontar propostas com a realidade de seu território e fazer uma escolha autônoma, crítica e consciente. Afinal, se a mobilização coletiva ajudou a transformar Heliópolis, conhecer a história e as propostas de quem pretende governar o país também é uma forma de participar dos rumos do futuro.
Um território dividido ao meio
Para medir o voto de Heliópolis e comunidades do entorno, a reportagem somou os resultados das zonas eleitorais 0259, 0260 e 0413, divisões da Justiça Eleitoral que reúnem os locais de votação da área de atuação da UNAS. Juntas, elas computaram 374.858 votos em 1.378 seções, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mesmo dentro do território há diferenças: Lula venceu na 0260 e na 0413, e Flávio levou a 0259 por 660 votos.
Votos válidos | Lula (PT) | Flávio Bolsonaro (PL) | Demais candidatos | Brancos | Nulos | |
Zona 0259 | 114.188 | 42,2% | 42,8% | 15,1% | 1,6% | 2,7% |
Zona 0260 | 129.842 | 45,4% | 43,3% | 11,3% | 2,0% | 3,5% |
Zona 0413 | 110.794 | 44,8% | 43,1% | 12,1% | 2,2% | 3,9% |
Heliópolis e Região | 354.824 | 44,2% | 43,1% | 12,8% | 2,0% | 3,4% |
Cidade de São Paulo | 46,6% | 42,1% | 11,3% | |||
Estado de São Paulo | 38,2% | 51,9% | 9,9% | |||
Brasil | 45,2% | 47,0% | 7,8% |
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 1º turno de 2026, presidente. Candidatos em percentual dos votos válidos; brancos e nulos em percentual do total de votos.

Em números absolutos, foram 156.678 votos para Lula e 152.864 para Flávio. Outros 45 mil eleitores, aproximadamente, escolheram candidatos que ficaram pelo caminho, como Renan Santos (Missão), o escritor Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD). No domingo, eles terão de optar entre os finalistas, votar em branco ou anular. Na capital, o petista abriu uma margem mais confortável, de 46,6% a 42,1%. A região votou, portanto, mais perto da cidade do que do restante do estado.
Quadro: Branco ou nulo, qual é a diferença?Fonte: Glossário Eleitoral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Voto em branco
Voto nulo
O que acontece com esses votos
Mitos e história
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O placar desmonta uma ideia muito repetida sobre as periferias: a de que seus moradores votam em bloco. Vizinhos que dividem a mesma viela, a mesma escola e a mesma associação chegam a conclusões distintas, por motivos próprios. Religião, trabalho, família, as mensagens que circulam no celular e a avaliação de cada candidato pesam de um jeito em cada casa. O resultado de uma zona eleitoral mostra o que um conjunto de pessoas decidiu, mas cala sobre as razões de cada uma.
Há também quem não chegou às urnas. No Brasil, onde o voto é obrigatório dos 18 aos 70 anos, 21,08% do eleitorado apto faltou ao primeiro turno: 33,4 milhões de pessoas, a maior abstenção num primeiro turno de eleições gerais desde 1998. São Paulo ficou entre os estados com mais ausências. Por trás desse número estão a distância até a seção, o trabalho no domingo, a doença, a criança pequena ou o pai idoso que depende de cuidado. E também a descrença de que o voto mude alguma coisa.
Entender as urnas pede olhar para quem votou, para quem ficou de fora e para as razões de uns e outros. Poucos lugares sabem disso tão bem quanto uma comunidade acostumada a ser descrita, de fora, por números que nunca a retratam por inteiro.
Quando Brasília chega à cozinha
Nas manchetes, política pública é sigla e cifra. Na cozinha de uma casa em Heliópolis, ela tem forma de remédio de pressão, de botijão de gás e de adolescente que continua na escola.
Para cobrar, é preciso saber de quem. No Brasil, a prefeitura cuida da creche e da coleta de lixo; o governo estadual, do policiamento e do metrô. Ao governo federal cabem o valor do salário mínimo e programas como o Bolsa Família, de transferência de renda, o Farmácia Popular e o Minha Casa Minha Vida, de habitação. Muitas políticas envolvem as três esferas, mas a cobrança rende mais quando se sabe em que porta bater. No domingo, a porta em jogo é a do Palácio do Planalto, sede da Presidência. Três programas federais ajudam a entender esse caminho.
Farmácia Popular. Criado em 2004, o programa distribui medicamentos em farmácias credenciadas. Desde fevereiro de 2025, os 41 itens da lista são gratuitos, entre eles remédios para hipertensão, diabetes, asma, colesterol e Parkinson, além de fraldas geriátricas e absorventes. Basta apresentar receita médica, documento com foto e CPF, o registro individual de contribuinte. Em 2024, 24,7 milhões de pessoas recorreram ao programa. Para quem toma remédio todo dia, a gratuidade libera dinheiro para a comida ou para a passagem de ônibus.
Pé-de-Meia. Lançado em 2024, funciona como uma poupança para estudantes de 14 a 24 anos do ensino médio público cujas famílias estão no Cadastro Único (CadÚnico), o registro federal de famílias de baixa renda. O aluno recebe parcelas de R$ 200 pela frequência e R$ 1.000 por ano concluído, valor que só pode ser sacado ao fim do curso, além de R$ 200 por fazer o Enem, o exame nacional de acesso à universidade. O total pode chegar a R$ 9.200. Em 2026, cerca de 3,6 milhões de estudantes receberam o incentivo de matrícula. A iniciativa mira um problema conhecido das periferias: o jovem que troca a escola pelo trabalho para ajudar em casa.
Gás do Povo. Criado pela Lei nº 15.348, de fevereiro de 2026, substituiu o antigo Auxílio Gás, pago em dinheiro. Agora a família retira de graça o botijão de 13 quilos numa revenda credenciada, de quatro a seis vezes por ano, conforme o número de moradores. Têm direito as famílias do CadÚnico com renda de até meio salário mínimo por pessoa (hoje, R$ 810,50), com prioridade para quem recebe o Bolsa Família. Numa casa de baixa renda, o gás de cozinha está entre as contas impossíveis de cortar.
Os candidatos tratam esses temas de formas diferentes. O plano de governo de Lula cita os programas pelo nome e propõe mantê-los e ampliá-los, junto com a política de valorização do salário mínimo. O de Flávio não menciona nenhum deles, mas promete "manter os programas sociais existentes", com combate a fraudes e prioridade para beneficiários em cursos de qualificação e vagas de primeiro emprego. "Quem depende hoje da ajuda do Estado para pôr comida na mesa não vai ter essa ajuda tirada", diz o documento.
Diante de cada promessa, vale perguntar quem terá acesso, com que critério e por quanto tempo. Foi com perguntas assim que Heliópolis aprendeu a separar promessa de conquista.
O que está escrito nos planos
Todo candidato à Presidência precisa registrar um plano de governo no TSE. É uma carta de intenções e um dos raros lugares em que as promessas ficam por escrito: mostra o que cada um quer fazer e como pretende fazê-lo. Depois da eleição, vira roteiro de cobrança.
Uma forma de ler esses documentos é contar as palavras. A Agência Mural, veículo de jornalismo dedicado às periferias da Grande São Paulo, registra desde 2018 quantas vezes os presidenciáveis escrevem "periferia" e "periférico". Em 2022, todos os candidatos somados usaram os termos 11 vezes; em 2026, 44. O plano de Lula responde por 11 menções, e o de Flávio, por nenhuma.
A reportagem conferiu a contagem nos documentos registrados no TSE e ampliou a lista de termos. Os dois planos têm extensão parecida, de cerca de 24,5 mil e 22,8 mil palavras, o que torna a comparação equilibrada.
Palavra | Lula | Flávio Bolsonaro |
periferia, periférico e variações | 11 | 0 |
favela | 2 | 0 |
comunidade | 10 | 4 |
desigualdade | 34 | 2 |
direito à cidade | 2 | 0 |
democracia | 19 | 4 |
Fonte: contagem da reportagem nos planos de governo registrados no TSE.
O vocabulário revela como cada candidatura enxerga esses territórios. O plano de Lula promete priorizar a urbanização de favelas pelo programa Periferia Viva, ampliar o Minha Casa Minha Vida e levar investimentos em água e esgoto às "periferias historicamente negligenciadas". O de Flávio fala em "urbanização de áreas degradadas" e propõe retomar o Casa Verde e Amarela, programa habitacional do governo de seu pai, com meta de 2,5 milhões de moradias financiadas "com a menor taxa de juros possível". Promete ainda "retomar as áreas hoje sob domínio de facções, devolvendo aos moradores a liberdade de ir e vir na própria comunidade" e transformar a Caixa Econômica Federal, banco público, num "Banco da Prosperidade", voltado a crédito, habitação e empreendedorismo. Em discurso no Rio de Janeiro, o senador resumiu a ideia como "o Itaú da favela" e "o Bradesco da periferia", em referência a dois dos maiores bancos privados do país.
Em resumo, um plano aposta em urbanização, moradia popular e infraestrutura; o outro associa a agenda dos territórios à casa própria financiada, ao crédito, ao empreendedorismo e ao combate ao crime.
A forma de nomear a favela também diz muito. No primeiro turno, o plano de Renan Santos (Missão), que teve 4,3% dos votos na região, afirmava que "a favela contaminou nossa cultura" e prometia acabar com as favelas em dez anos. As palavras indicam se uma comunidade é vista como parte da cidade, com moradores que têm direitos e ajudaram a construí-la, ou como um problema a ser eliminado.
Contar palavras mede ênfase. Compromisso se mede no orçamento e no cronograma, e aí os dois planos deixam lacunas: nenhum estima o custo das novas moradias ou diz quanto dependerá de dinheiro público.
Seis por um: o tempo que falta para viver
Trabalhar seis dias e folgar um. Somar duas ou três horas diárias de ônibus e metrô. Chegar em casa e ainda cuidar dos filhos, da comida e de um parente idoso. Para muitas famílias da região, sobretudo para as mulheres, a semana termina sem tempo para descansar, estudar ou conviver. Poucos temas mostram tão bem como uma decisão tomada em Brasília muda a rotina de quem mora longe dela.
Em 14 de outubro, o Senado aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que acaba com a escala 6x1. Dois dias depois, o Congresso promulgou o texto, a primeira mudança constitucional na jornada de trabalho desde 1988. As regras entram em vigor em etapas:
Sessenta dias após a publicação, previstos para meados de dezembro, a jornada máxima cai de 44 para 42 horas semanais, com dois dias de descanso.
Doze meses depois, o limite passa a ser de 40 horas semanais e oito horas por dia.
O salário não pode ser reduzido, inclusive os pisos das categorias.
Acordos e convenções coletivas podem prever outras escalas como forma de compensação.
O tema também permite medir a coerência entre discurso e trajetória. O fim da 6x1 era uma das prioridades do governo Lula e consta do plano de governo do PT. Flávio Bolsonaro chamou a proposta de eleitoreira em maio e, no plano apresentado em agosto, defendeu "o negociado sobre o legislado", modelo em que patrão e empregado combinam diretamente as condições de trabalho. Em 13 de outubro, já na campanha do segundo turno, anunciou que votaria a favor da PEC. "A maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da escala 6x1. Só que a gente defende algo ainda melhor", disse. Lula atribuiu a mudança de posição à mobilização popular: "Me parece que depois de todas as manifestações de rua desse Brasil, o PL resolveu votar o fim da escala 6x1".
Agora na Constituição, a regra só poderia ser revertida por nova emenda, aprovada por três quintos da Câmara e do Senado. A disputa passa a ser a aplicação: a fiscalização, os limites dos acordos coletivos e o espaço que cada governo dará à negociação direta entre empresa e empregado.
Nas periferias, jornada de trabalho é também questão de cidadania. É do tempo livre que sai a hora de estudar, de cuidar da família, de ir à reunião da associação e de acompanhar o que fazem os governantes. Um dia a mais de descanso pode ser um dia a mais de participação.
Perguntas antes de apertar "confirma"
"Devemos buscar conhecer as propostas do candidato e do seu partido", escreve Renata Livia Arruda de Bessa Dias, analista judiciária do TSE, em artigo sobre voto consciente publicado pela Escola Judiciária Eleitoral. Somada à experiência de Heliópolis, a recomendação se desdobra em seis perguntas.

As propostas respondem aos problemas da minha região? Moradia, saneamento, saúde, educação, transporte, trabalho e renda definem a vida nas periferias. Vale conferir o que cada candidato diz sobre cada tema.
O candidato explica como vai cumprir? Uma proposta precisa de dinheiro, prazo e responsável. Sem esses elementos, a promessa fica no ar.
A trajetória combina com a promessa? O que o candidato fez, como votou e o que defendia antes da campanha dizem muito sobre o que fará depois dela.
Quem está ao lado dele? Partido e aliados mostram com quem o futuro presidente vai governar e qual será sua força no Congresso.
Como ele trata a democracia? Respeito ao resultado das urnas, às instituições e à participação popular é condição para que a comunidade continue podendo se organizar e cobrar.
A informação que recebi é confiável? Antes de acreditar e compartilhar, vale checar a origem da mensagem e procurar a mesma notícia em veículos reconhecidos.
Alguns fatos ajudam a responder. Lula concorre pela coligação de PT, PCdoB, PV, PSB, PSOL, Rede e PDT, com Geraldo Alckmin (PSB) como vice. No segundo turno, Flávio ampliou suas alianças com o apoio de União Brasil, Podemos, PP, Republicanos e Novo. No campo institucional, o plano de Lula abre com o eixo "Fortalecer a democracia, a participação social e modernizar o Estado", que prevê conferências e conselhos populares. O de Flávio propõe uma reforma do Judiciário que limita as decisões individuais de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), apresentada como forma de "restabelecer o equilíbrio entre os Poderes". Em setembro de 2025, o STF condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado após a derrota na eleição de 2022; hoje, o ex-presidente cumpre prisão domiciliar. Em entrevista à TV Globo, Flávio afirmou que vai respeitar o resultado das urnas.
Cada um desses fatos pesará de um jeito para cada eleitor. O voto consciente admite conclusões diferentes; o que ele pede é informação, disposição para comparar e liberdade para escolher.
O voto consciente começa antes da urna
A história de Heliópolis ensina que todo direito precisa ser conquistado na prática. Ele pode estar escrito na lei ou impresso num plano de governo, mas só se torna realidade quando a comunidade se organiza para exigi-lo. A escritura das casas é o exemplo mais recente: a Constituição assegurava desde 1988 o direito de permanecer, e foram precisos 38 anos de reuniões, documentos protocolados e idas a gabinetes para que o papel chegasse às mãos das famílias. Foi assim também com a água, a luz, o esgoto, as creches e as escolas. Cada conquista do território carrega o trabalho coletivo de gerações, que negociaram com governos de todas as cores sem abrir mão da própria voz.
É essa bagagem que Heliópolis leva às urnas. A favela que aprendeu a fazer o próprio censo, a mapear suas ruas e a apresentar propostas ao poder público sabe que votar é parte de um trabalho maior: conhecer os problemas do território, acompanhar quem decide sobre eles e cobrar resultados. Quem passou décadas sendo descrito de fora hoje produz seus próprios dados, forma lideranças e ocupa espaços de decisão. Essa é a potência da favela, transformar necessidade em organização, e organização em direito.
Essa força coletiva convive com a diversidade. Origem, renda e endereço moldam a experiência de vida, mas a escolha política é de cada pessoa. Em Heliópolis há eleitores dos dois candidatos, gente que mudou de opinião e gente que ainda está decidindo, e essa pluralidade também faz parte da democracia. Mas, enquanto o voto é individual, o rumo do país alcança todos: define o orçamento público, a continuidade dos programas sociais, as condições de trabalho, os investimentos nas cidades e o acesso a direitos.
A responsabilidade continua depois do último bipe da urna. Passada a eleição, cabe acompanhar o governo escolhido, fiscalizar o uso do dinheiro público, cobrar as promessas registradas nos planos de governo e seguir participando dos conselhos, das conferências e das reuniões de bairro. A democracia se fortalece quando a população é tratada como parte da construção da cidade e do país o ano inteiro, e não apenas em época de campanha. As periferias já mostraram que sabem ocupar esse lugar.
Heliópolis foi erguida pela luta popular e pela mobilização coletiva, e ainda há muito a conquistar: moradia digna para todas as famílias, saneamento completo, segurança, saúde, cultura e oportunidades para a juventude. O voto é uma das ferramentas dessa luta, e cada eleitor que comparece à urna reafirma que a favela tem voz e quer ser ouvida.
No domingo, dia 25, o seu voto não é só seu. É pela sua mãe, pelo seu filho, pelo seu avô e por todas as pessoas que você ama. É pelos nossos, pelo território que construímos juntos e pelo futuro de quem vive e ainda vai viver aqui.
Serviço: o que você precisa saber para votar
O segundo turno acontece no domingo, 25 de outubro, das 8h às 17h (horário de Brasília). É preciso levar documento oficial com foto ou apresentar no celular o e-Título, aplicativo da Justiça Eleitoral. Quem faltou ao primeiro turno pode votar normalmente, desde que o título esteja regular, e tem até 3 de dezembro para justificar a ausência. Como algumas seções mudaram de endereço, vale conferir o local de votação no site do TSE ou no e-Título.
Metodologia
O voto de Heliópolis e comunidades da região foi calculado a partir das zonas eleitorais 0259, 0260 e 0413 da capital paulista, que abrangem os locais de votação da área de atuação da UNAS. Os dados vêm do painel de resultados do TSE (1º turno de 2026, presidente, 100% das seções apuradas, atualização de 5 de outubro). As três zonas somam 1.378 seções e 374.858 votos. A reportagem somou os votos de cada candidato nas três zonas e recalculou os percentuais sobre o total de votos válidos (354.824), sem tirar médias entre zonas de tamanhos diferentes. Brancos e nulos foram calculados sobre o total de votos. As zonas eleitorais são divisões da Justiça Eleitoral e podem ultrapassar os limites dos bairros. Além disso, parte dos moradores vota em outras zonas, como quem mudou de endereço sem transferir o título. A contagem de palavras nos planos de governo foi feita nos documentos registrados no TSE, incluindo plural e variações de cada termo.































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