Projeto Helipa na Tela leva formação audiovisual gratuita a jovens de Heliópolis
Iniciativa da UNAS busca ampliar o acesso de moradores da favela ao mercado audiovisual

O crescimento do setor audiovisual brasileiro amplia as possibilidades de formação, trabalho e produção cultural, mas essas oportunidades não chegam a todos os territórios da mesma maneira. Em 2025, o fomento público ao audiovisual ultrapassou R$ 1 bilhão, segundo dados da Ancine (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual). No mesmo ano, a Prefeitura de São Paulo registrou 6.911 novos CNPJs no setor. Os números indicam a dimensão dos recursos destinados à área e a presença de novos negócios, mas também levantam uma questão: quem consegue participar desse mercado?
Em favelas como Heliópolis, o acesso à formação e aos recursos necessários para trabalhar com audiovisual ainda pode ser limitado pelos custos de equipamentos, pela distância de instituições de ensino e pela falta de oportunidades locais. Para enfrentar parte dessas barreiras, a UNAS Heliópolis e Região desenvolveu o projeto Helipa na Tela, que busca aproximar os moradores desse mercado, oferecendo formação gratuita e criando possibilidades para que jovens do território não apenas ingressem no setor, mas também produzam e contem suas próprias histórias.
Steffany Alves, 24, conhecida como Cabulosa, é influencer e produtora de conteúdo para a internet, e é uma das participantes do projeto. Ela conta que, antes de integrar o Helipa na Tela, já tinha interesse em trabalhar com cinema, mas sentia dificuldade em avançar para além da produção de conteúdo nas redes sociais. “Eu sempre tive muita vontade de fazer cinema fora da criação de conteúdo, mas tinha vergonha de fazer alguma coisa, por já ser influencer”, conta. “Tive interesse em fazer o curso para ter mais embasamento e passar credibilidade”.

Quando começou a produzir conteúdo para a internet, Cabulosa tentou aprender sozinha as técnicas do audiovisual. O processo, porém, foi marcado pela dificuldade de encontrar orientações que considerassem suas condições financeiras. “Foi bem difícil porque, quando eu pesquisava na internet, era sempre: ‘Você precisa de tal equipamento, você vai precisar de cabo tal’. E era muito surreal, assim, fora do meu financeiro”, relata. A influenciadora aponta que, durante as aulas, passou a conhecer outras formas de trabalhar com os recursos disponíveis, o que expandiu a sua mente sobre a produção audiovisual. Ela conta que um momento que a marcou foi quando um dos oficineiros deu dicas sobre improvisação de iluminação com objetos que os alunos já tinham em casa. “Ensinou as coisas mais simples, sendo que eu ficava presa na ideia de que só os melhores equipamentos e as melhores técnicas iam fazer o meu conteúdo um bom conteúdo”, afirma.
Além do aprendizado técnico, a experiência também mudou sua percepção sobre o processo de criação. Para ela, o projeto ajudou a entender que a produção audiovisual depende não apenas dos equipamentos utilizados, mas também das referências e das ideias que orientam o trabalho. “Não adianta você comprar equipamento de 500, 700 reais para filmar, se você não tiver sobre o que filmar, se não tiver um repertório”, avalia. Cabulosa conta que esperava encontrar no curso uma formação concentrada nas técnicas de produção, mas também passou a refletir sobre sua relação com a arte e com o próprio trabalho. “Poder ampliar a minha mente e ter esse contato com uma expansão pessoal foi uma coisa que me deixou mais segura”, diz.

O interesse em ampliar suas oportunidades no audiovisual também levou Beatriz Sanchez, 20, a participar do projeto. Beatriz conta que o audiovisual sempre esteve presente em sua vida de forma marcante, o que despertou seu interesse inicialmente pela fotografia. “Meu interesse pelo audiovisual vem também de uma parte afetiva. É uma coisa com que eu me apeguei porque a minha mãe tirava muitas fotos dos meus irmãos mais novos. E, para mim, a fotografia é isso: registrar nossas memórias. A gente só sabe que algo existiu porque existe foto”, relata.
Embora já tivesse contato com a fotografia, Beatriz conta que buscou o projeto para aprofundar o seu conhecimento e alcançar oportunidades na área. “Me interessei em participar do projeto para me profissionalizar e ter mais contato com audiovisual, para além da fotografia, já que o curso abrange várias áreas”, explica. Ela também destaca as orientações dos oficineiros sobre as possibilidades de ingresso no setor. “Gosto muito da forma como o projeto aborda o mercado nas aulas. Eu aprendi muita coisa e conheci muita gente. Os oficineiros dão dicas e abrem espaço para entrarmos no mercado de uma forma bem mais interessante”, afirma.
Para Beatriz, a formação pode facilitar o acesso a oportunidades profissionais, especialmente para quem vive em Heliópolis. “Vejo o projeto como uma porta de entrada, e é muito interessante principalmente olhando para onde a gente mora. Pode gerar muitas oportunidades”.

Formação e produção audiovisual no território
A falta de oportunidades de formação em Heliópolis também fez parte da trajetória de Felipe Porto, 22, morador de Heliópolis, técnico em audiovisual, fotógrafo, cinegrafista e diretor de fotografia. Ele ingressou no Helipa na Tela como aluno e, posteriormente, foi convidado para ministrar as oficinas de Direção de Fotografia. Felipe conta que começou a aprender audiovisual de maneira intuitiva, por meio da prática. Mesmo depois de adquirir conhecimentos de forma independente, decidiu buscar uma formação técnica para compreender melhor os processos envolvidos no trabalho que realizava. “Eu não me sentia artista. Busquei uma formação para ter a teoria e entender o que eu realmente estava fazendo de fato, assim, por mais que eu já soubesse. Foi para ter autoestima como artista”, relata.

Depois de se formar como técnico em audiovisual na ETEC (Escola Técnica Estadual) Jornalista Roberto Marinho, ele participou de projetos independentes em outras regiões da cidade. A experiência fez com que percebesse a falta de oportunidades semelhantes no lugar onde cresceu. “Me sentia em dívida com o meu território. Porque eu ia buscar em Paraisópolis, na Berrini, em outros lugares, e faltava muito aqui”, afirma. Ao ingressar no Helipa na Tela, a expectativa de Felipe era trocar experiências com moradores que já produziam ou tinham interesse em trabalhar com audiovisual. “É o que o Emicida fala: ‘Nunca volte para a sua quebrada de mente vazia’. Eu queria ver o que o território está pedindo e o que o audiovisual daqui tem para falar”, explica.
O convite para ministrar as oficinas foi, para ele, uma oportunidade de compartilhar os conhecimentos adquiridos ao longo da própria trajetória. “Significa que o meu trabalho está caminhando para algum lugar que faça sentido. Não só para mim, mas para o meu território”, afirma.
A experiência também reforçou sua percepção sobre as dificuldades de acesso à formação. Embora tenha encontrado oportunidades em instituições públicas e em projetos independentes, Felipe considera que nem todos os jovens têm as mesmas condições para buscar essas alternativas fora da comunidade.

Produção de narrativas pelo próprio território
O acesso à cultura por meio do cinema ainda é marcado por desigualdades sociais no Brasil. A pesquisa Hábitos Culturais de 2026, realizada pelo Observatório Fundação Itaú, revelou que 63% das pessoas das classes A e B foram ao cinema nos 12 meses anteriores, enquanto apenas 18% das classes D e E estiveram presentes nesses espaços. A diferença evidencia que o acesso às salas de cinema também é atravessado pelas condições socioeconômicas da população. As desigualdades, porém, não se limitam ao consumo. No mercado audiovisual, as oportunidades de formação e produção também são distribuídas de maneira desigual, o que afeta a participação de moradores de favelas na criação de filmes e na construção das narrativas que chegam às telas.
Em um levantamento sobre a representação das favelas cariocas no cinema, o pesquisador Tiago de Almeida Moreira reuniu um breve inventário de 25 filmes e identificou apenas três obras realizadas por pessoas nascidas ou criadas nesses territórios. O levantamento reflete a realidade em que, embora as favelas sejam frequentemente retratadas no cinema brasileiro, seus moradores ainda têm participação limitada na produção das histórias que representam suas realidades.
Felipe acredita que ampliar a oferta de formação em Heliópolis é uma maneira de aproximar os moradores do setor e criar condições para que mais pessoas desenvolvam seus próprios trabalhos. “É importante ter iniciativas como essa para que a gente também possa democratizar o acesso ao cinema. Não só ir ao cinema, mas também fazer, contar suas próprias narrativas”, defende. Para ele, a possibilidade de produzir e contar as próprias histórias é parte importante desse processo. “É uma forma de deixar de paternalizar nossas narrativas e encontrar as nossas próprias. A gente pode falar, não depender de alguém. E não buscar fora também”, afirma.
A primeira etapa do projeto é composta por seis meses, que serão voltados à realização das oficinas e formações em audiovisual. Na segunda etapa, após o encerramento do primeiro semestre, o Helipa na Tela produzirá um longa-metragem documental sobre o território, com a participação de quatro jovens que passaram pela primeira etapa e que poderão replicar os conhecimentos adquiridos.

Nesse sentido, a formação profissional pode contribuir tanto para ampliar as oportunidades de trabalho quanto para aumentar a participação de moradores de Heliópolis na produção audiovisual. Ao oferecer aulas gratuitas e aproximar os participantes de profissionais da área, o Helipa na Tela cria um espaço de contato com o setor para jovens que nem sempre encontram essas possibilidades no próprio território.
Felipe conta que a expectativa é que a iniciativa tenha continuidade e possa ampliar sua atuação. “Espero que no futuro [o audiovisual em Heliópolis] seja algo mais estruturado e que tenhamos mais caminhos abertos, mais projetos como esse, mais fomentos culturais”, diz.
O Projeto Helipa na Tela é uma realização da UNAS, com o patrocínio do Google, por meio do PROMAC (Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais).































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