Projetos sociais da UNAS levam Carnaval às favelas invisibilizadas de SP
- Escrito por Marcela Muniz | Editor Douglas Cavalcante
- há 15 horas
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Folia organizada nos equipamentos reforçam o direito ao lazer e ampliam a participação comunitária
Em 2026, a cidade de São Paulo concentrou o recorde de 627 blocos de rua durante o período de Carnaval, segundo informações divulgadas pela Prefeitura. A região da Sé, localizada no centro, recebeu a maioria dos desfiles, sendo 157 deles (o equivalente a um quarto do total). Os dados revelam que, apesar de o Carnaval ser a festa mais popular do mundo, mais uma vez as favelas enfrentam um cenário em que é marginalizada e invisibilizada na capital paulista. Diante disso, ao longo do mês de fevereiro, os projetos sociais da UNAS promoveram celebrações carnavalescas com os seus atendidos em Heliópolis e nas comunidades do entorno.
Na região do Jardim Maristela, o CCA (Centro para Criança e Adolescente) Georgina do Carmo Moreira e o CEI (Centro de Educação Infantil) Jardim Clímax I realizaram o Folistela, no dia 13 de fevereiro, que oportunizou uma integração entre os bebês, crianças e adolescentes na praça. A atividade se conecta, inicialmente, com a perspectiva de Paulo Freire de que o território também educa, reconhecendo espaços, como a praça, como ambientes pedagógicos fundamentais. Bruna Custódio, 31 anos, é coordenadora pedagógica no CEI Clímax e aponta que essa ação se relaciona com o “direito das crianças de serem livres e interagirem com os demais integrantes do bairro, principalmente porque acreditamos [enquanto UNAS] no bairro educador”.

O dia do Folistela foi marcado por brincadeiras, muita espuma, confetes e serpentinas, proporcionando uma folia especial para os atendidos diariamente pelos projetos. Fabiana Schonwertter, 50 anos, coordenadora pedagógica do CCA Georgina, associa a importância da realização de eventos como o Folistela com a imagem das periferias perante a sociedade. “As pessoas veem a comunidade como um espaço onde não pode haver cultura”, aponta.
Ela ainda completa que a ação ser voltada tanto para os adolescentes quanto para o público da primeira infância é essencial para o desenvolvimento do senso crítico desde cedo. “Procuramos mostrar para essas crianças que não são só os grandes centros que podem ter alegria, diversão e lazer. É muito importante que eles entendam isso desde pequeninos, para que possam entender os direitos que têm”. A coordenadora ressalta que essa forma de trabalhar com as crianças nos projetos sociais contribui para que no futuro eles possam “se tornar cidadãos que saibam lutar pelos seus direitos”.
A folia também aconteceu no Jardim São Savério, reunindo as equipes e os atendidos do SASF (Serviço de Assistência Social à Família) Chico Mendes, CCA Plácido de Souza Filho e o CEI Frei Sérgio. A ação, chamada de Quarteirão da Folia, que também aconteceu no dia 13 de fevereiro, se iniciou alguns dias antes entre as famílias beneficiadas pelo SASF, que puderam produzir adereços que seriam utilizados durante a festa. Jaqueline Dantas, 38 anos, é coordenadora do projeto e conta que este foi um momento de troca de experiências e que possibilitou que os atendidos participassem da ação, ainda que não pudessem estar presencialmente. “Nessas interações com a equipe, pudemos abordar alguns temas prévios, como a importância de estar na rua e de participar de atividades como essa”, relata.

No Quarteirão da Folia, os projetos ocuparam as ruas localizadas nas suas proximidades com músicas de carnaval, baterias, gritos de guerra, apitos e cartazes. Jaqueline conta que, para além da garantia do acesso ao lazer, o evento também foi utilizado como um espaço de denúncia e reivindicação sobre situações que acometem os equipamentos e, consequentemente, os atendidos. “Trouxemos a visão de que, quando nossos serviços são invadidos, depredados e afins [por moradores da região], são essas as crianças [participantes da ação e beneficiadas pelos projetos] que acabam sendo prejudicadas, pois o espaço é delas. Elas também estavam ali para reivindicar respeito”, comenta a coordenadora.
Jaqueline completa que “pensar na realização do Quarteirão da Folia dentro do Jardim São Savério é poder trazer para este território a existência de um espaço seguro de cultura, lazer, e interação social e reivindicação de direitos. É para mostrar que estamos ali, lutando, existindo e resistindo”.
A maior favela de São Paulo também recebeu um momento de folia entre os projetos sociais da UNAS. Na última sexta-feira (20), o Foliópolis reuniu os CCAs localizados em Heliópolis para uma grande celebração na entrada do CCA Lagoa, localizado na Rua Flor do Pinhal. Leticia Avelino, 27 anos, educadora no CCA 120 diz que “ocupar a favela com uma festa como o Foliópolis é uma forma de reivindicar direitos porque a rua é nossa. É também uma forma de apropriamento”. Para ela, a realização da ação supre uma necessidade urgente de cultura e lazer no território.
Durante a ação, foi realizado um desfile de estandartes produzidos previamente nos CCAs, denunciando a realidade da favela, através de temas identificados pelas próprias crianças e os adolescentes, como violência contra a mulher, diversidade e educação. “Eu, como educadora, me sinto orgulhosa em ver a vontade deles em lutar para conquistar coisas novas. Penso que vai vir deles a mudança de um território que um dia eu já pensei ‘esse lugar não vai mais sair do mesmo ou vai ser pior’. Temos mais esperança”, reflete Leticia.
Para a educadora, iniciativas como o Foliópolis, o Folistela, o Quarteirão da Folia e outras, demonstram a capacidade que a favela tem de ‘fazer barulho’. Desde o início de sua atuação na formação de Heliópolis, a UNAS busca promover ações pela reivindicação de direitos e denúncia da ausência de políticas públicas, em um território vulnerabilizado. “Antigamente, as pessoas saíam nas ruas e gritavam com vontade. Hoje, mostramos para as crianças as importância e elas sempre vêm cheias de vontade de fazer a diferença. Isso mostra que ainda vale a pena investir na nossa quebrada”.










































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