Heliópolis inicia produção de censo próprio para enfrentar invisibilidade nos dados oficiais
- Escrito por Marcela Muniz | Editor Douglas Cavalcante
- há 2 horas
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Lideranças comunitárias e pesquisadores da UNAS realizarão levantamento territorial para produzir dados precisos e fortalecer a luta por políticas públicas no território
A favela de Heliópolis, desde o início de sua formação e construção das primeiras moradias, tem a sua história marcada pela forte mobilização comunitária para a melhoria na qualidade de vida. Hoje, com 1 milhão de metros quadrados de extensão e enfrentando uma verticalização acelerada, a necessidade de lutar pelo acesso às mesmas condições de vida presentes no restante da cidade ainda faz parte da rotina dos moradores. Um exemplo dessa desigualdade é a escassez de informações que reflitam a realidade de um território periférico de forma legítima.

“Nós não nos vemos representados nos dados que existem sobre a nossa favela”, expõe Reginaldo José, 49, coordenador de projetos na UNAS e membro da Diretoria Ampliada. O desabafo de Reginaldo evidencia a necessidade do desenvolvimento de um censo que possa solucionar os obstáculos enfrentados por órgãos no processo de coleta de informações sobre Heliópolis. No ano de 2010, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou dados que apontavam para 41.118 pessoas vivendo em Heliópolis. Já no Censo de 2022, resultados atualizados apresentaram a quantidade de 55.583 habitantes, revelando um crescimento populacional de aproximadamente 35%, ao longo de 12 anos.
Mas, para quem vive o cotidiano na maior favela de São Paulo, esses números não contam toda a história. Atualmente, lideranças comunitárias estimam que cerca de 200 mil moradores vivem em Heliópolis (quase quatro vezes mais do que o registrado pelo IBGE). Diante deste cenário, visando a produção de dados consistentes, que contribuam efetivamente na luta pela garantia de políticas públicas, a UNAS está implementando o projeto Censo de Heliópolis.
Por que Heliópolis não aparece nos dados?
Sabrina Oliveira, 25, pesquisadora, educadora popular e bacharel em Políticas Públicas, explica que existem diversos obstáculos a serem enfrentados durante a coleta de dados, característicos de um território periférico. Para ela, os elementos geográficos são exemplos de fatores que tornam o processo mais complexo. “Aqui [em Heliópolis] existem becos, vielas, ruas sem nome, casas sem número, construções sobrepostas, famílias diferentes morando ‘uma em cima da outra’. Por isso, muitas vezes, o recenseador simplesmente não consegue localizar todas as unidades habitacionais”, expressa Sabrina. “Essas características acabam impedindo o alcance das pessoas que estão nesses locais e a pesquisa não consegue cobrir o território em sua totalidade”, completa.

O Observatório De Olho Na Quebrada, projeto da UNAS composto por jovens pesquisadores, realizou, em 2025, um levantamento que buscou investigar no território a causa da inconsistência nos dados existentes sobre Heliópolis. A pesquisa levantou a quantidade de moradores que declaram não terem sido visitados pelo IBGE para o Censo de 2022. O mapa abaixo, desenvolvido por Aluízio Marino em uma das oficinas com a equipe do Observatório, demonstra o percentual de domicílios imputados na pesquisa (ou seja, casas em que o IBGE não conseguiu coletar dados diretamente e precisou estimar as informações com base em modelos estatísticos).

Em algumas áreas da favela, o problema é ainda mais evidente. O levantamento revela que, ainda que a maioria das casas tenha sido visitada em grande parte do território, há uma parcela relevante de Heliópolis em que não houve coleta direta das informações. O núcleo Portuguesa, por exemplo, apresenta uma área em que entre 71% e 82% das casas tiveram dados estimados, o que significa que a maioria dos domicílios não recebeu visita dos recenseadores. Reginaldo explica que o Censo de Heliópolis utilizará métodos de coleta que buscarão reduzir as lacunas existentes devido a diversas características do território, como a rotina de trabalho das famílias. “Entendemos que temos que nos adaptar à realidade dos moradores e moradoras que, na maioria dos casos, precisam passar o dia fora de casa para sustentar a família [financeiramente]. A coleta ocorrerá em diversos horários, pensando no público que iremos pesquisar”, reforça o coordenador.
Sabrina também relembra a desconfiança dos moradores quanto à pesquisa realizada pelo IBGE para o Censo de 2022, outro ponto que possivelmente gerou subnotificação dos dados que foram divulgados pelo Instituto. “Na época, estavam sendo disseminadas várias fake news. Por exemplo, as pessoas acreditavam que responder sobre renda na pesquisa poderia, por algum motivo, fazer com que elas perdessem algum benefício [do governo]. Isso não é verdade, o recenseador não tem esse poder de denúncia”.
Reginaldo acredita que a proposta do novo censo se destaca, principalmente, por ser comunitário e constituir uma equipe composta por agentes do próprio território. “As pessoas que moram aqui já conhecem a realidade. A população terá maior abertura e confiança para responder o questionário”, aponta. Ele também relaciona a importância de uma equipe local com o conhecimento territorial, sobre as ruas e vielas que acabariam não sendo adentradas por pessoas que não vivem em Heliópolis.

Os limites entre o mapa oficial e o território vivido
Nem mesmo os limites de Heliópolis são um consenso nos dados. O IBGE, por exemplo, possui uma metodologia padronizada que define o que é considerado favela a partir de diversos aspectos em comum com outras áreas vulnerabilizadas no país. Sabrina explica que, ainda que a metodologia possibilite a análise das transformações urbanas ao longo do tempo, ela impõe limites na compreensão sobre as favelas. “Torna difícil identificar a complexidade do local, entender as dinâmicas específicas de cada território, e gera distorções interpretativas dessas áreas”, diz. A educadora também produziu um mapa que destaca a diferença entre a área definida pelo IBGE e o que é considerado Heliópolis pelos moradores.

O coordenador do projeto avalia que a área delimitada na coleta de dados para o Censo do IBGE não abrange a favela de forma total. “Hoje, definimos o que é Heliópolis a partir da história dessa comunidade e dos moradores que a construíram”. Áreas como Pilões e Cingapura não são consideradas no levantamento censitário de Heliópolis e acabam excluindo dos dados os moradores dessas regiões. “A história de Heliópolis é fundamental para entender onde o território começa e onde ele termina. Se a gente olhar só para o mapa ou para os limites oficiais, muita coisa da realidade daqui fica de fora. O território foi sendo construído ao longo do tempo, com as ocupações, famílias que vieram de outras partes da cidade e com a própria organização dos moradores”, expressa Reginaldo.
O membro da Diretoria da UNAS reflete sobre o papel do IBGE, que não é invalidado na realização de um censo comunitário. “O nosso censo não é um censo que está competindo com o do IBGE. Nós reconhecemos a importância do trabalho deles, inclusive utilizamos os dados quando precisamos de números gerais. Mas, para nós, também é muito importante ter dados específicos do território, principalmente de questões características que não aparecem nas pesquisas.”
Produzir dados para transformar políticas públicas
Além dos Censos realizados pelo IBGE, diversas fontes de dados apontam inconsistência e geram disparidades nos números utilizados para compreender o território. Em 2017, paralelamente ao órgão, um relatório de gestão divulgado pela Prefeitura Regional do Ipiranga apresentou o número de 180 mil habitantes em Heliópolis. No entanto, não foram encontradas informações a respeito do processo de coleta dos dados que levaram ao indicador. “Há diversos dados públicos que chegam a números diferentes. E a partir do momento que nenhum deles bate, há parâmetros muito distintos definidos por poderes públicos que inviabilizam políticas públicas que respeitem as demandas desse território”, questiona Sabrina.
Nabil Bonduki, 71, arquiteto e urbanista, é um dos vereadores que viabilizaram a realização da primeira fase do Censo de Heliópolis por meio de emenda parlamentar e aborda a forma como estatísticas distorcidas afetam o planejamento do poder público para as periferias. “Sem dados que espelhem a realidade é impossível traçar um bom diagnóstico e, de consequência, recursos podem não ser aplicados corretamente”. Além disso, o vereador também comenta sobre o papel dos dados na garantia de políticas públicas. “Nenhuma política pública pode ser desenhada sem o conhecimento da realidade, ou diagnóstico da situação. É fundamental ter dados confiáveis que se somarão a outros métodos de conhecimento como entrevistas, vivências, pesquisas anteriores, etc”, expressa.
Reginaldo destaca que o projeto se faz necessário para a produção de dados que gerem credibilidade para as lutas pela melhoria na favela de Heliópolis. “No território, desde sempre, temos a força da mobilização. Temos percepção da nossa realidade, a população se organiza e se mobiliza, mas, muitas vezes, faltam dados concretos que comprovem pelo que estamos lutando.”
Dheison Silva, 38, também é vereador apoiador da fase inicial da proposta e reflete sobre a realização do Censo por uma organização como a UNAS, principalmente pela “seriedade que a UNAS trabalha no território, não apenas em Heliópolis, mas na cidade de São Paulo”. A visualização do parlamentar sobre a instituição se conecta com o principal compromisso do Censo, de acordo com o que Reginaldo acredita. “O principal é poder fazer um trabalho sólido que gere uma confiança na população e, principalmente, poder mostrar para eles o resultado futuramente, na melhoria de onde vivemos”.
O Censo de Heliópolis é uma iniciativa da UNAS Heliópolis e Região, e conta com a parceria do Centro de Estudos das Cidades do Insper e da Redes da Maré. A primeira fase do Censo, que irá realizar a cartografia e mapeamento de domicílios no território (de forma a subsidiar as fases seguintes do projeto), será viabilizada por meio de emenda parlamentar dos vereadores Nabil Bonduki e Dheison Silva.
Porém, para desenvolver um censo comunitário eficaz e que possa ser utilizado como ferramenta para a melhoria e garantia de políticas públicas para o território, é necessário executar também a segunda fase (mapeamento de comércios, serviços e organizações sociais) e a terceira (pesquisas domiciliares), que ainda não possuem apoio concreto. Caso tenha se identificado com a iniciativa e se interesse em apoiar a continuidade do Censo de Heliópolis, entre em contato pelo e-mail: apoieacausa@unas.org.br.






























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