UNAS lança livro com diagnóstico feito pelos próprios moradores e revela retrato da maior favela de São Paulo
- Escrito por André Silva | Editor Douglas Cavalcante
- há 12 horas
- 5 min de leitura
Heliópolis, a maior favela de São Paulo, tem sofrido, ao longo dos seus 50 anos de existência, com a precariedade de dados oficiais governamentais, um problema que dificulta a identificação e a validação das necessidades do território e, consequentemente, a luta e a garantia de políticas públicas que atendam às reais demandas vividas pelos moradores. As políticas oficiais de mapeamento frequentemente fragmentam o território durante sua execução, o que compromete a confiabilidade dos dados produzidos, como ocorreu no mapeamento dos casos de Covid-19 durante o período pandêmico e também no censo governamental, ambos realizados sem considerar a totalidade do território.
Nos últimos anos, a UNAS tem buscado soluções para esse problema e encontrou, em projetos sociais, uma resposta para a expressiva ausência de dados referentes ao território. Iniciativas como o Observatório De Olho na Quebrada e o Renda Digna em Heliópolis têm evidenciado as necessidades vividas e sentidas pelos moradores, servindo como mecanismos que auxiliam na reivindicação de políticas voltadas à melhoria do território e ao bem-estar da população.
O capítulo mais recente desse trabalho de pesquisa-ação — metodologia que combina investigação acadêmica com ação prática — realizado em Heliópolis foi desenvolvido pelo Projeto Diagnóstico Colaborativo Territorial. Entre março e agosto de 2025, a iniciativa mapeou o território com o objetivo de compreender as condições de vida da população local, a partir de uma metodologia baseada na escuta direta dos moradores, que vivenciam diariamente os desafios do território.

“Muitas vezes, ele [o diagnóstico tradicional] é feito de cima para baixo: um técnico, um gestor público ou alguém ligado à academia vai até o território, aplica um questionário, analisa alguns dados de longe e volta com um relatório. Esse documento pode até conter números precisos, mas geralmente conta apenas uma parte da história, e quase sempre pela ótica de quem está de fora da realidade local.” explica Sabrina Santos, uma das organizadoras do projeto. “[..] a beleza do Diagnóstico Colaborativo é justamente essa: ele inverte a lógica. O território deixa de ser um objeto de estudo, uma estatística, e se torna a protagonista, a sujeito da pesquisa. O morador não é só alguém que responde a perguntas; ele ajuda a formular as perguntas, a interpretar os dados e a pensar nas soluções. É a vivência cotidiana dele que dá profundidade àquele conhecimento.”
A metodologia de coleta de dados considerou a dimensão territorial, adotando a divisão de Heliópolis em oito núcleos que compõem uma área de cerca de 1 milhão de m². Essa organização permitiu analisar de forma mais aprofundada os dez eixos temáticos centrais da pesquisa: participação social, educação, saúde, lazer, meio ambiente, empregabilidade, mobilidade, infraestrutura, moradia e segurança pública.
“A importância de um projeto como o Diagnóstico se dá, primeiro, pela falta de informações sobre territórios periféricos que são invisibilidades pelo poder público, como o que ocorre em Heliópolis.” afirma Bruno Holanda, coordenador do projeto Diagnóstico Colaborativo. “Com isso, a pesquisa como maneira de levantamento de dados na região é necessária para contrapor os cenários inexistentes reforçados pelo poder público e também pela mídia.”
O projeto foi desenvolvido em três etapas principais de coleta de dados. Na primeira, foi aplicado um questionário a 395 moradores de Heliópolis, composto por 65 perguntas quantitativas relacionadas aos eixos temáticos. A aplicação ocorreu nos oito núcleos do território, e os dados foram organizados considerando esse recorte territorial. Na segunda etapa, foram realizados grupos focais nesses mesmos núcleos, com oficinas de mapeamento e a promoção de discussões coletivas, abordando dois eixos temáticos por vez, com o objetivo de produzir dados qualitativos. Essas oficinas reforçam não apenas a identificação dos problemas, mas também das potencialidades existentes no território. Por fim, na terceira etapa, foram realizados mapeamentos participativos com atendidos de outros projetos desenvolvidos pela UNAS em Heliópolis, incluindo sete unidades do Centro para Crianças e Adolescentes (CCA) e dezessete turmas do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (EJA); o projeto também realizou o mapeamento em outras atividades envolvendo adolescentes do território. Essa fase contribuiu para a identificação de problemas e de pontos estratégicos do território a partir da perspectiva desses participantes.
Para Sabrina, “a grande contribuição do Diagnóstico Colaborativo” é que ele promove um encontro de saberes que entrelaça o conhecimento técnico-científico por meio de metodologias de pesquisa, dados e sistematização de informação, com o saber popular que é desenvolvido na vivência do território, nas relações sociais que ocorrem nos espaços de convivência e na história oral de Heliópolis. “[..] Tenho para mim que o diagnóstico coloca a caneta na mão de quem vive o território para que ele mesmo desenhe o seu futuro.”
O trabalho realizado pelo projeto está reunido nas páginas do livro Diagnóstico Territorial Colaborativo, uma publicação que registra esse processo de troca e a construção coletiva de um retrato do território a partir de quem vive nele. A obra apresenta os dados levantados nos dez eixos norteadores da pesquisa e evidencia as reflexões produzidas ao longo do processo investigativo.
“Em uma pesquisa tradicional, muitas vezes o pesquisador coleta os dados e vai embora, e a comunidade nunca mais vê o resultado. [...] A cartilha quebra esse ciclo. Ela devolve a informação para a comunidade de forma acessível, com linguagem simples, infográficos e mapas que os moradores conseguem entender. É o reconhecimento de que a informação pertence, em primeiro lugar, a quem vive ali.” explica Sabrina.
“Essa publicação cumpre o papel de registrar as informações sobre os mais diversos temas de Heliópolis e o de provocar mudanças por meios oficiais através de cobranças de políticas que melhor atendem às necessidades que são levantadas.” afirma Bruno. “A cartilha também é um trabalho dedicado aos moradores, onde apresentamos um panorama do lugar onde vivem, diagnosticando o que funciona e o que não, e as maneiras que eles [moradores] incidam dentro da sua realidade.”
Entre os dados apresentados, destaca-se a constatação de Heliópolis como um território com a população de maioria negra, correspondendo a 67,6% do total .Uma das situações que é exposta pela pesquisa é a presença violenta e desproporcional da polícia no território. Segundo a pesquisa, 41,2% dos entrevistados afirmaram já ter presenciado algum tipo de violência policial, enquanto 40,7% relataram ter sofrido esse tipo de violência diretamente. A presença constante de ações policiais também impacta o cotidiano dos moradores: o Diagnóstico Colaborativo identificou que 92% dos entrevistados afirmaram que alguma operação policial já prejudicou suas atividades diárias.
O Diagnóstico Colaborativo também evidencia, por meio de seus dados, a presença do racismo ambiental no território, especialmente nos impactos diretos à saúde dos moradores. Segundo o levantamento, 4 em cada 10 moradores procuraram atendimento médico por doenças relacionadas às condições precárias do meio ambiente, como problemas respiratórios, dengue, infecções associadas à água não tratada, alergias e agravamentos provocados pela poluição. Esse grupo corresponde a 41% do total de atendimentos, revelando que o ambiente urbano de Heliópolis não apenas impõe desafios à qualidade de vida, mas também se configura como um fator ativo de adoecimento da população.

Como resultado, o Diagnóstico Colaborativo Territorial se apresenta como um instrumento político e social construído a partir do protagonismo dos próprios moradores e, ao sistematizar informações que historicamente foram invisibilizadas pelo Estado, o projeto fortalece a capacidade do território de reivindicar ações eficazes e de políticas públicas. Mais do que evidenciar as dificuldades de Heliópolis, o Diagnóstico Colaborativo também destaca a mobilização comunitária, reafirmando que o processo de pesquisa também é uma forma de resistência e de transformação social.































Comentários