Ação midiática taxa Heliópolis como uma das favelas mais perigosas do Brasil

A partir do dia 29 de maio de 2021 o desaparecimento do soldado Leandro Patrocínio e os desdobramentos desse caso vem chamando a atenção, tanto dos moradores quanto das pessoas que não conhecem o nosso bairro. Heliópolis se tornou destaque de boa parte da mídia. Novas notícias e atualizações sobre o caso foram veiculadas e publicadas de forma constante. Como de praxe da abordagem sensacionalista e preconceituosa, as manchetes e relatos afirmavam que Heliópolis é um território dominado pelo crime organizado e um dos lugares mais violentos da cidade de São Paulo.

"Lembrando que a polícia vem até aqui com todo o cuidado porque a comunidade de Heliópolis é conhecida por ser uma comunidade muito perigosa" (Record TV)
“Por muitas vezes policiais que vieram fazer operação aqui foram recebidos a tiros” (Record TV)

A cobertura da mídia cria uma imagem da favela de Heliópolis como um território em guerra, repórteres com coletes à prova de bala circulam por becos e vielas acompanhados por policiais fortemente armados. Embora não seja novidade, a cobertura sobre este caso específico teve uma repercussão fora dos padrões. De maneira geral, as reportagens sobre o caso reforçaram pré-conceitos que estigmatizam as favelas e territórios populares como lugares perigosos, que devem ser evitados e até mesmo eliminados.


Além de mentirosa, essa forma de retratar o caso prejudica a imagem de todos aqueles que vivem em Heliópolis. Um exemplo disso, é que há muito tempo que os jovens daqui encontram dificuldades para arranjar emprego, muitos relatam que indicam outro endereço no currículo para conseguir uma oportunidade.



É triste perceber que os projetos sociais, iniciativas solidárias e políticas públicas conquistadas pela comunidade não possuem a mesma cobertura e atenção da mídia quando comparada a episódios de violência. Nos solidarizamos com os familiares e amigos do soldado Leandro, entretanto criminalizar e estigmatizar a favela não ajuda em nada a resolver o problema. Pelo contrário, passa a impressão que essa situação é rotineira em nossa comunidade.


Pelo contrário, o que mostramos com essa pesquisa é que Heliópolis, diferentemente do que afirmaram as manchetes policiais nas últimas semanas, NÃO é um dos territórios mais violentos de São Paulo. É claro que existe violência em Heliópolis, assim como em qualquer outro território da cidade de São Paulo. Entretanto, mais do que um território violento, Heliópolis é um território de paz, que pede e faz a paz acontecer a partir de iniciativas como a caminhada pela paz e tantos outras que acontecem em nossa comunidade. Assim como pode ser visto no mapa a seguir.


REVANCHISMO OU SEGURANÇA?


Desde o dia do desaparecimento, a polícia aumentou de forma nunca antes vista sua presença no território. Mais do que a busca pelo soldado, a ação da polícia se deu como uma revanche, intimidando pessoas da comunidade que nada tem haver com o caso. O clima de tensão e medo era tamanho que as pessoas começaram a circular áudios anunciando uma espécie de “toque de recolher” nos grupos de WhatsApp da comunidade.


“Todos os funcionários do AME foram dispensados, a van está levando os funcionários para o Sacomã, se protege cuida dos bichos, guarda todos eles. Eles vão invadir, é o que a gente tá escutando, a partir das 18h00 vai rolar uma invasão” (trecho de um dos áudios que circulou nos grupos de WhatsApp)

A própria cobertura da mídia não escondeu a intenção da polícia em vingar a vida do soldado Leandro Patrocínio: "A polícia não vai abandonar a comunidade essa operação sufoco vai continuar, esse é o recado que a polícia está dando pra comunidade”. A ideia de uma “operação sufoco” é mobilizada como justificativa para sufocar e impedir o tráfico de drogas, entretanto, toda a comunidade paga o preço desse tipo de intervenção. É importante reforçar que a presença da polícia gera sentimentos contraditórios dentro da comunidade. Existe uma parte significativa dos moradores que apoiam a presença dos policiais, principalmente pelo fato de que, desde o início das operações de busca, não houve bailes funk (ou fluxos) em Heliópolis. Conforme apontamos em pesquisa anterior, o barulho dos chamados “paredões” (carros de som que, inclusive, foram apreendidos pela polícia militar) tira o sono e a tranquilidade de muitos dos moradores.


A demanda pela tranquilidade da população que sequer consegue dormir em dias de baile é importante e precisa ser levada em conta. Entretanto, a forma como as forças do Estado vem atuando em Heliópolis é totalmente injustificada. Ao longo dos últimos dias uma série de violências e violações foram cometidas pelos policiais, elencamos abaixo algumas delas:

  • A polícia entrou na casa de moradores sem mandato judicial, ou seja, invadiram suas residências.

  • Moradores são abordados nos pontos de entrada/saída da comunidade, em sua maioria trabalhadores que precisam ganhar o sustento do lar.

  • Jovens que nada tinham haver com o caso foram abordados de forma violenta e até mesmo conduzidos para a delegacia. Isso faz com que muitos estejam com medo de circular na comunidade.

  • A polícia ambiental, que nunca entrou em Heliópolis, realizou uma apreensão de passarinhos que moradores criam em gaiolas. Um tipo de ação que evidencia claramente o sentimento de revanchismo das forças policiais.

Durante a operação o jovem Bruno Silva Pereira foi assassinado pela polícia dentro da sua própria casa. A mãe e o irmão, que afirmam que Bruno estava dormindo no momento da abordagem, presenciaram o fato. O assassinato de Bruno gerou repercussão e protestos na comunidade. Além de Bruno, pelo menos mais dois jovens foram assassinados e outros dois baleados pela polícia.





POR UM BAIRRO EDUCADOR


Ao longo dos quase 50 anos de sua história, Heliópolis vem articulando um movimento que busca transformar a comunidade em um Bairro Educador. Apesar de terem sido formulados mais recentemente, podemos dizer que os princípios que fundamentam esse movimento sempre fizeram parte das práticas que constituem as relações sociais em Heliópolis e que constituíram a história da comunidade, hoje reconhecida como modelo de organização social.


Princípios do bairro educador:

  • Tudo Passa Pela Educação

  • Escola e Projetos Sociais como centro de liderança na comunidade

  • Autonomia

  • Responsabilidade

  • Solidariedade

Tais princípios político-pedagógicos sistematizados inicialmente na EMEF Presidente Campos Salles foram abraçados pela UNAS, em assembleia com moradores ocorrida em 2007. Desde então uma intensa articulação vem ocorrendo entre equipamentos públicos existentes na região, com a criação de práticas políticas e educativas integradas e intersetoriais, desenvolvidas a partir de projetos e ações que ocorrem no território: a Caminhada pela Paz, o Seminário de Educação e o Observatório De Olho na Quebrada são exemplos.


O primeiro princípio evidencia que que todas as questões e desafios da comunidade passam pela educação, Portanto, para melhorarmos as condições de vida da comunidade são necessários investimentos e políticas públicas que fortaleçam o papel da escola e das organizações comunitárias que já atuam em Heliópolis.


Nossos índices de violência são menores que a média da cidade, como pode ser visto nas páginas anteriores, isso se deve em boa medida às ações e projetos desenvolvidos pela UNAS, em parceria com serviços e equipamentos públicos locais.

Obviamente que ainda existem desafios a serem enfrentados, a exemplo dos conflitos em torno do baile funk, que ao mesmo tempo que é espaço de lazer e oportunidade para a comunidade empreender, também incomoda o sono e o sossego de grande parte dos moradores. Acreditamos que os desafios e conflitos são resolvidos a partir do diálogo e da prática coletiva, potencializado por políticas públicas que envolvam a comunidade em seu processo de elaboração, implementação e avaliação.


A presença ostensiva da polícia em Heliópolis, embora para parte dos moradores seja significado de segurança, está longe de resolver os reais problemas que existem no nosso território. Pelo contrário, reforça os conflitos já existentes a partir de uma narrativa que coloca “nós contra nós mesmos”. É fundamental que enfrentemos nossos desafios juntos, aprendendo um com os outros, isso é um bairro educador!


Esse é o nosso horizonte, Heliópolis como bairro educador. Para tanto, já realizamos diversas iniciativas e projetos, saiba mais:

Realização: Observatório de Olho Na Quebrada | UNAS Heliópolis e Região

Parceiro: Open Society Foundations

Apoio: Instituto Construção, ActionAid Brasil e Instituto Sol da Paz


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