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21 anos de Biblioteca Viva: a história de um espaço construído por Heliópolis

Escrito por Marcela Muniz | Editor Douglas Cavalcante
há 1 minuto
6 min de leitura

À frente do espaço desde de 2010, Ângela de São José relembra a vida da Biblioteca Comunitária de Heliópolis, mantida pela UNAS sem apoio financeiro fixo



No último dia 10 de setembro, a Biblioteca Comunitária de Heliópolis completou 21 anos de uma trajetória marcada pela resistência em Heliópolis, onde o acesso à literatura e à cultura foi escasso por muito tempo. Há anos atrás, moradores que tinham interesse em livros precisavam percorrer uma distância de cerca de 4km até as Bibliotecas Castro Alves e Roberto Santos, bibliotecas públicas mais próximas do território, pela ausência de uma no próprio local. Em 2005, a Biblioteca foi inaugurada pela UNAS, na Rua da Mina, com o objetivo de suprir a necessidade da comunidade. 


Atualmente, a Biblioteca possui uma atuação consolidada no território, mesmo sem apoio financeiro fixo para as suas atividades. Segundo dados fornecidos pela própria Biblioteca, são cerca de 300 pessoas atendidas gratuitamente, com um acervo de 13 mil livros catalogados. O trabalho realizado é marcado principalmente pelo conceito de Biblioteca Viva. O equipamento, que oferece oficinas de dança, teatro e contação de histórias, não se apresenta apenas como um espaço de empréstimo de livros ou de quietude, como o comum, mas como um local de convivência, troca e circulação de pessoas.


Ângela de São José, 63, iniciou como oficineira no espaço e hoje atua na gestão da iniciativa, desde 2010. Ângela lembra que sempre foi apaixonada por literatura. O processo de seu letramento, na infância, teve início através do contato com os livros da dona de uma casa em que sua mãe atuava como diarista. Hoje, ela conta que o espaço marca sua vida pessoalmente e relembra os destaques ao longo das duas décadas do equipamento. “Quando falo da história dessa Biblioteca, é uma coisa que vem de dentro”.


2005 - A inauguração da Biblioteca Comunitária de Heliópolis


A Biblioteca surgiu no ano de 2005 com o apoio de Ruy Ohtake, através do projeto Identidade Cultural. Na época, o arquiteto identificava a disparidade das questões sociais enfrentadas pelos bairros de Higienópolis e de Heliópolis, que tornavam a favela mais “feia” em uma comparação estrutural, quando constituiu com a UNAS uma parceria para promover melhorias no território. Inicialmente, o projeto visava a pintura das fachadas das casas na Rua da Mina e Paraíba, quando a demanda por uma biblioteca no local foi revelada pelos moradores. E assim nasceu a primeira Biblioteca Comunitária de Heliópolis.



2010 - A biblioteca ganha vida


A partir de 2010, o local passou a desenvolver o conceito de Biblioteca Viva, uma forma de pensar a literatura para além do livro. A ideia partiu da equipe, que durante anos percebeu que muitas crianças chegavam à biblioteca, liam por pouco tempo e iam embora. Ângela conta que a Biblioteca tinha potencial para se tornar um espaço de permanência, para além do modelo tradicional, e para fortalecer o interesse pela leitura. Para ela, era importante pensar em uma forma de ‘quebrar o silêncio’ e aproximar os moradores. “Estamos em uma comunidade em que as pessoas gostam de falar e gostam de ser ouvidas. E uma biblioteca não precisa ser necessariamente silenciosa. Nos preocupamos em atrair o público e oferecer esse acolhimento”. A partir dessa ideia, a Biblioteca passou a utilizar linguagens artísticas, como teatro de fantoches e contação de histórias, tornando a biblioteca um espaço mais dinâmico e atrativo, principalmente para as crianças. Ângela relata que, para além do conceito que ampara as atividades, ela enxerga a biblioteca como, de fato, viva: “Essa biblioteca tem uma alma”


2012 - Projeto une literatura e dança


A dança passou a fazer parte das atividades da biblioteca a partir da iniciativa de uma jovem da comunidade, professora de balé em formação, que queria desenvolver um trabalho social. Ângela lembra que, na época, a professora havia tentado aplicar a iniciativa em outras bibliotecas, que negaram a iniciativa por não ‘fazer sentido’. A partir da parceria, nasceu o projeto Dança Conta História, com a proposta de unir a literatura e a dança, desenvolvendo rodas de leitura e de conversas com crianças, que transformavam a história em uma apresentação de dança. Atualmente, as oficinas de balé concentram o maior público das atividades da Biblioteca.



2013 - Os saraus entram na programação


A biblioteca ampliou sua atuação cultural com o início dos saraus. A iniciativa também fortalece a participação da comunidade, convidando mães de crianças que já frequentavam as atividades de contação de histórias para participar das aulas de dança, que passam a integrar esse movimento cultural construído no espaço. A realização de saraus na Biblioteca expandiu o trabalho e abriu portas para parcerias com o Sesc, por exemplo, que, nos anos seguintes, passou a convidar a equipe para realizar atividades em suas unidades com o público geral. 


2014 - O trabalho ultrapassa as paredes da biblioteca


A preocupação em aproximar as crianças da leitura também levou a biblioteca para outros espaços. Em um projeto sobre literatura e meio ambiente, os participantes trabalhavam os livros e, ao final do ciclo, saíam do território para uma visita monitorada ao Parque Cientec, da USP. Ângela acredita que a experiência foi importante para possibilitar que a Biblioteca passasse a ocupar novos territórios. “A Biblioteca tem que ser itinerante, não tem que se resumir a ficar num espaço físico parado. A biblioteca itinerante anda, com seus livros, seus frequentadores, seus arte-educadores. Ela se torna um corpo”


2019 - O Brechó Paletó de Marx


Diante da falta de recursos financeiros fixos, a Biblioteca criou o Brechó Paletó de Marx como uma alternativa para arrecadar dinheiro e custear pequenos reparos e necessidades do espaço. “Às vezes, a gente tinha essa estrutura meio que deteriorada, quando quebrava uma lâmpada ou estourava um cano”, conta Ângela. A iniciativa também funciona em formato de escambo, possibilitando que pessoas sem condições de comprar as peças possam oferecer serviços em troca, fortalecendo a circulação e a participação da comunidade na manutenção da Biblioteca.


2020 - A biblioteca no suporte durante a pandemia


Durante a pandemia de Covid-19, a Biblioteca Comunitária de Heliópolis permaneceu funcionando como um dos polos de apoio às ações realizadas pela UNAS para atender à comunidade, e esteve na linha de frente em meio à emergência de saúde global. Além de apoiar na distribuição das cestas e na realização de ações na rua, a equipe realizava intervenções com poemas e entrega de livros com as pessoas impactadas. Para Ângela, a necessidade da iniciativa estava relacionada a proporcionar um contato com a cultura e despertar uma esperança na comunidade. “O alimento serve para nos nutrir, mas a arte alimenta a nossa alma e nos nutre de esperança. Ouvir uma poesia, muitas vezes, traz uma perspectiva de um futuro melhor”, conta.



2021 - Biblioteca expande seu público e atendimento


O projeto Entre Cantos e Contos surgiu com o objetivo de suprir um desafio da Biblioteca, existente desde 2010: o atendimento da população idosa do território. Participando de um edital, a Biblioteca pôde implementar o projeto que utilizava a música para falar sobre livros e abriu espaço para que os idosos compartilhassem suas histórias e memórias. “Não vejo muitas bibliotecas que realizam esse trabalho com idosos e é algo muito importante. Proporcionar momentos felizes e fazer com que os últimos anos de vida deles sejam realmente vividos”, reforça Ângela. 


2024 - Reforma e reinauguração da Biblioteca Comunitária de Heliópolis


Por muitos anos, o atendimento da Biblioteca foi realizado de forma adaptada à estrutura disponível que, muitas vezes, limitava o trabalho. As atividades com os idosos, por exemplo, não aconteciam de forma 100% efetiva por obstáculos físicos do local envolvendo a acessibilidade, como degraus altos na entrada ou uma escada estreita para os andares acima. Por não contar com um recurso financeiro fixo, o equipamento esperava oportunidades para reformar o espaço. Em 2024, o sonho de aperfeiçoar o espaço para ampliar o atendimento foi possível através de uma parceria com o Consulado da República Tcheca. 



Mesmo enfrentando diversos obstáculos ao longo dos anos, a Biblioteca se mantém de pé para democratizar o acesso à cultura. Sem apoio financeiro fixo, a Biblioteca Comunitária de Heliópolis se firmou como símbolo de resistência na maior favela de São Paulo. Ângela relata que essa é a maior dificuldade para realizar o trabalho do espaço. 


Na Biblioteca, os recursos que garantem o seu funcionamento são conquistados periodicamente e de forma limitada. Para realizar as oficinas no espaço, são escritos projetos para editais, emendas parlamentares, leis de incentivo, ou outras formas de apoio, assegurando verba durante tempo determinado. Quando não há projetos financiados acontecendo no local, a equipe da Biblioteca atua de forma voluntária, sem qualquer previsão de um novo apoio. “É ruim porque quando acaba um projeto, acaba o dinheiro. As equipes passam por aqui, mas a gente perde depois. Já perdemos muitas pessoas bacanas”, conta Ângela. 


Ângela também reforça a importância do trabalho dos diversos voluntários e de apoiadores na construção da trajetória da Biblioteca. Ela destaca o espaço como um lugar “construído coletivamente pelas pessoas”


“Na nossa fachada, que por muito tempo foi branca, hoje tem o trabalho dos grafiteiros. Aqui dentro, tem o trabalho das pessoas que já escreveram todos os projetos para manter viva a Biblioteca. Tem a presença das pessoas que doaram os livros para nós.”

Ângela São José, coordenadora da Biblioteca



 
 
 

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