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Travesti, Preta e Nordestina quebra estatísticas e ingressa na faculdade

Ser travesti no Brasil é um grande desafio, principalmente por ser o país que mais mata essa população hoje. A cada 48h uma pessoa trans é assassinada no país mesmo sendo o que mais consome pornografia do gênero. E mesmo que a perspectiva de vida dessa população seja em média de 35 anos, não é o caso de Josy Barbosa Costa, de 41 anos, a recepcionista do Centro de Cidadania LGBTI Edson Néris, que acaba de conseguir uma bolsa integral no curso de pedagogia na UNIFAI.


Josy é uma travesti preta e nordestina, que nasceu em Aquiraz, Fortaleza, uma cidade praiana e pequena, vem de uma família católica e se descobriu gay aos 13 anos, quando foi expulsa de casa pelo pai, pois era agredida por conta da sua orientação sexual, mas ela não guarda mágoa do pai já falecido. Na época começou a se montar e teve que se prostituir para sobreviver, mas ainda não sabia que era uma travesti. Futuramente, com 17, 18 anos descobriu a mulher que havia dentro de si, então começou sua transição.


Aos 19 anos, veio morar em São Paulo, no Parque Pirajussara, para cuidar do sobrinho a convite da irmã, foi um “choque de realidade” disse ela “tudo era muito grande e diferente, fiquei doente até com a mudança de clima”, demorando para se acostumar com o ritmo da cidade. Alguns anos depois a irmã foi embora levando o sobrinho e teve que ficar morando com o cunhado, que não demorou muito para pedir que ela saísse, neste período ficou na casa de conhecidos sem emprego. Arrumou trabalho em um salão de cabeleireiro no Campo Limpo e na época se aproximou de uma família do bairro, vivendo com eles por cerca de dez anos, família essa que ela é extremamente grata e como ela mesmo diz “é minha família de SP”, mesmo eles só tendo o teto a oferecer ela teve que ir para a prostituição novamente para conseguir se alimentar.

Durante seus anos de rua (prostituição), Josy teve inúmeras dificuldades como ser agredida por grupos saindo de jogos de futebol já que seu ponto ficava próximo ao estádio, chegou a ser assaltada por clientes que se recusavam a pagar, chegando até a ser espancada pela polícia, diversas situações que são recorrentes na vida das que estão nas ruas, já que para elas portas são fechadas, oportunidades não existem sendo vistas somente como um pedaço de carne. Isso ocorre muito por conta da invisibilização dessa população, a falta de oportunidades os levam a ter que se sujeitar a essas situações para sobreviver.


Com o passar dos anos, em São Paulo ela se aproximou do Candomblé, onde foi acolhida sem distinção de nada, já que cresceu procurando um lugar onde pudesse ser quem era, aceita sem preconceito algum, “a religião me acolheu de uma forma que lugar nenhum fez, lá não importa se vc é preto ou branco, magro ou gordo, trans ou cis, eles vão te abraçar pelo que você é por dentro” disse ela com um sorriso de gratidão no rosto.


Em 2016, Josy através de algumas amigas teve ciência do programa TransCidadania, que é uma iniciativa da Prefeitura Municipal de São Paulo que objetiva a elevação escolar e a inclusão no mercado de trabalho de travestis, mulheres trans e homens trans em situação de vulnerabilidade social. Na época o programa era oferecido no único Centro de Cidadania aberto, que ficava no centro da cidade, através dele voltou a estudar, terminando o ensino médio. Alguns meses antes do fim do programa, os Centros foram descentralizados e ganharam novas unidades em todas as regiões de São Paulo, com essa mudança ela terminou o programa no Centro de Cidadania LGBTI Edson Néris, que fica na zona sul e é administrado na UNAS. “O programa é uma porta de entrada para quem não terminou os estudos, o intuito do programa é elevação escolar e empregabilidade, podendo sair empregada como muitas saem, pensando sempre num futuro melhor, no programa tudo mudou na minha vida, mudou o meu pensamento, as atitudes, os conselhos dos técnicos me transformaram” disse ela sobre o programa que fez com que ela conseguisse ajudar a mãe a construir a casa e a colocar sua prótese com o dinheiro do programa.

Em 2018, após dois meses do fim do programa, ela ainda estava desempregada, mas sem esperar recebeu uma ligação do CCLGBTI Sul com uma proposta de emprego para ser recepcionista do projeto, e muito feliz com a ligação, começou no dia seguinte. Josy entrou crua no cargo, sem experiência, mas com o tempo foi aprendendo a ser a ótima profissional que é hoje, “é uma troca diária, eu transformo quem passa aqui e sou transformada também diariamente por todes que passam ali” destacou ela. Hoje ela entende que sua função vai além do primeiro atendimento, fazendo um acolhimento mais amplo por ter passado por diversas situações em que os atendidos passaram, além de ser uma referência, aliás quantas travestis vocês encontram em recepções?


Os Centros de Cidadania hoje são uma política municipal, mas deveria ser uma política federal, para que a população LGBTQIAP+ do país tivesse um respaldo, serem bem acolhidos e recebidos, sendo sempre contemplados por um curso ou um trabalho, já que é um espaço que faz muita diferença. O Centro da zona sul hoje é administrado pela UNAS, e coordenado pela travesti nordestina Gerohannah Barbosa que contratou pessoalmente a Josy para o equipamento, “nunca tinha trabalhado em um espaço grande como a UNAS, mas lá sou muito bem recebida e respeitada, tenho um sentimento de gratidão pelas oportunidades até aqui, sinto que ganhei mais uma família. Agora a Geroh, ela é uma mãe, uma tia, uma avó, ela tem um coração imenso, uma eterna mãe." afirmou ela sobre o trabalho na UNAS.


Este ano, Josy recebeu o contato para bolsas na universidade UNIFAI - Centro Universitário Assunção, ela se inscreveu e foi aprovada com uma bolsa integral no curso de pedagogia, com início em Março de 2023, tendo a pretensão de trabalhar em algum projeto da UNAS futuramente, de preferência algum que tenha atendimento às crianças, esperando também que com os estudos consiga uma vida estruturada financeiramente, podendo ajudar ainda mais a sua família, tendo também o sonho de ter a casa própria em São Paulo e ter um filho.


Histórias como a de Josy revelam que muitas pessoas só precisam de oportunidades! Se hoje ela está onde está, construindo o futuro que escolheu, foi através de muito esforço, claro, mas acima de tudo através de oportunidades. Caso conheça alguma pessoa trans e ou travesti e puder dar uma oportunidade, dê, vamos juntos mudar esse cenário, chega de ser invisível - Dia Nacional da Visibilidade Trans.



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