Sob a luz da educação jovem de Heliópolis transforma outras vidas da comunidade


Ao falar de favela o relato é normalmente tratado como superação ou até mesmo a falta dela, mas superar para quem mora na favela pode ser sentido como transformação, é não deixar que o olhar de fora te limite ou te designe em algum rótulo, todos podem ser o quiser, por isso aos poucos é importante contar algumas dessas histórias, essas que nos fazem lembrar do propósito da UNAS até aqui. Ao ouvir a história do Kaio é perceptível que um dos pilares da organização tem sido efetivo ao longo dos anos, “tudo passa pela educação”, que lembra a importância do preenchimento do tempo da juventude além da sala de aula, até porque toda atividade desses projetos é educação “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem.” Karl Marx.

Aos 24 anos, Kaio Barbosa Laurentino é formado em Filosofia pela UFABC onde trabalha atualmente, contou que sua aproximação direta com a UNAS foi através de um projeto que desenvolve atualmente em conjunto com a universidade, mas sua chegada na organização foi em meados de 2009 quando foi um atendido do CCA Heliópolis “Foi lá onde eu aprendi a comer de garfo e faca, e jamais vou esquecer isso” disse ele sobre a passagem pelo Centro, neste período ele confessou ser uma criança um tanto levada, mas as diversas atividades do centro como Hip Hop, exibição de filmes, discussões, Xadrez… conseguiram ajudá-lo a canalizar essa energia, segundo o Educador Augusto que acompanhou Kaio na época “Por mais bagunceiro que ele fosse quando o tema interessava, ele desenvolvia muito bem, então ele tinha uns momentos de bagunça de não querer saber de nada, de rebeldia, mas ao finalizar as tarefas ele sempre entregava, ele sempre dialogava, ele sempre debatia, ele era muito interessado em questões de vídeo, documentários, filmes de atividades que envolviam algum tema social”, e complementou que “Hoje ele é quem ele é, e eu tenho por mim que o CCA, os educadores, a coordenação foi muito importante pra isso".


Nesse mesmo período, Kaio se mostrou indignado com um caso de assassinato de uma jovem de 17 anos chamada Ana Cristina, onde um GCM de SCS a matou com uma bala perdida durante uma perseguição, então criou uma redação onde ficou em defesa da revolta na época e da ação direta da comunidade contra a ação policial, na redação ele explana de forma bem clara como é a união de Heliópolis, detalhando os protestos na época, neste texto Kaio se mostrou muito a frente do seu tempo por identificar as micro e macro violências que a favela sofreu e sofre até os dias atuais.


Kaio estudou grande parte de sua trajetória na EMEF Luiz Gonzaga do Nascimento Jr., localizada em Heliópolis, mas através de um processo seletivo para vagas remanescentes em 2014 ele fez o último ano do Ensino Médio na ETESP, esse ano foi decisivo em sua trajetória. Foi nesse período que começou a desenvolver uma consciência mais crítica e se engajar politicamente. Não à toa, foi nesse período que começou a vislumbrar o acesso à universidade, em especial à pública. Como não tinha feito curso técnico, e não sabia se faria Direito ou História, começou a fazer Técnico em Serviços Jurídicos e um cursinho aos sábados, mas não aguentou. Apesar disso, concluiu o médio e no ano seguinte, 2015, conseguiu ingressar na tão sonhada universidade pública. Esse processo mostra a importância da fundamentação crítica do projeto pedagógico, pois a formação obtida tanto no projeto social da UNAS, quanto na Gonzaguinha e na ETESP, por mais distintas que tenham sido, expressaram a perspectiva da formação comprometida com o pleno desenvolvimento humano e com as causas sociais. Em 2015, chegou a fazer matrícula em três instituições, mas optou pela UFABC pela proximidade territorial e pelo seu projeto.


“A questão do Bairro Educador é o que eu gosto muito do Heliópolis, dessa concepção do bairro educador é essa ideia da integralidade da educação, ou seja, de que a educação integral não tem haver com o tempo na escola mas sim de fazer parte de várias coisas, podem ser outras coisas porque se “Tudo passa pela educação” outras coisas também são educação, mas não são educação escolar, sei lá como ir numa escola de samba.” Disse ele sobre a integralidade da educação, um fundamento que a UNAS defende na maior parte de seus projetos.

Foi nessa fase onde conseguiu entender de forma mais clara e ampla as necessidades do território onde vive, foi então quando integrou a equipe do Projeto: Produção e Reprodução do Conhecimento, Fortalecendo as Bases de um Bairro Educador, que é oriundo de uma emenda do Deputado Federal Alexandre Padilha em parceria com a Universidade. O projeto compõe diversas ações fora da educação formal, ou seja, de formação continuada, organizando cursos tendo Heliópolis como fonte de pesquisas, estudos e seus moradores protagonistas, além da construção de um Museu Digital de Heliópolis. Mas é como coordenador adjunto do projeto, que o filósofo faz toda a logística até a certificação dos cursos, transformando vidas da região e levando todos os contemplados para participar de saraus na comunidade e outros eventos como o Seminário da Educação que acontecerá ainda em Agosto.


“Heliópolis é uma comunidade bastante Foda, por toda sua história o Heliópolis se tornou de fato um bairro educador, uma referência de toda a centralidade que tem na cidade de São Paulo, eu vi um vídeo do Observatório De Olho na Quebrada que falam que 3% da cidade de São Paulo moram no Heliópolis, é a centralidade em diversos aspectos.” Disse Kaio sobre a comunidade que mora e atua com seu projeto.

Ele não quer parar por aí e colará grau em breve em ciências humanas, e como tantos outros que passaram por algum projeto da UNAS olha para a comunidade com afeto e carinho, reverberando com sua formação e trabalho em outras atividades atingindo outros jovens que no futuro poderão entender como a educação é transformadora. ⁠Kaio acompanha a vertente Marxista mesmo não concordando com tudo que foi produzido até aqui, mas acredita em uma frase de Marx que expõe o quanto a Educação é luz: “Um dia perguntaram a um sábio quantas luzes é necessário para iluminar a noite e um homem, então ele respondeu: à noite é necessário várias luzes, o homem apenas uma, educação.” Karl Marx.

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