52% das diaristas de Heliópolis perderam sua renda na pandemia

Realizamos diversas pesquisas para dar visibilidade aos impactos da pandemia na vida dos moradores de Heliópolis. Estamos de olho nas transformações que estão ocorrendo ao longo do último ano, e por isso afirmamos: Toda a comunidade foi afetada com diminuição de renda, falta de comida no prato e impactos na saúde física e mental.


Nessa pesquisa, avançamos no sentido de compreender os impactos específicos na vida das mulheres que atuam como diaristas e trabalhadoras do lar. Isso pois percebemos que foram um dos grupos mais afetados.


Os impactos da pandemia na vidas dessas mulheres está para além do conflito entre o isolamento social e a necessidade de trabalhar para pagar as contas. Aqui vamos explorar esses impactos e evidenciar sua complexidade.


Para guiar a pesquisa adotamos uma abordagem interseccional, ou seja, a compreensão dos impactos da pandemia na vida dessas mulheres a partir de uma abordagem feminista, antirracista e territorializada. Portanto fomos ouvir, como dizem elas próprias: as mulheres mais poderosas do mundo.

A pesquisa 'O impacto da pandemia na vida das diaristas e trabalhadoras do lar' foi realizada entre dezembro de 2020 e março de 2021 e utilizou como referência o “guia de diretrizes em pesquisa feminista” elaborado pela Actionaid. Resumidamente, extraímos do material três diretrizes principais:


- Interseccionalidade;

- Questionar as causas das desigualdades;

- Empoderamento.


PERFIL DAS MULHERES


TRABALHO NA PANDEMIA

O termo “empregada doméstica” carrega a história de servidão e exploração das mulheres negras. Por isso utilizamos nessa pesquisa o termo trabalhadoras do lar, embora não seja esse o termo mais utilizado por essas profissionais.


Os dados apresentados mostram o que já apontamos em pesquisas anteriores, o impactos da pandemia na diminuição da renda dos trabalhadores. 95% das mulheres afirmaram que a renda diminuiu, sendo que 52% afirmam não ter mais renda.


O questionário e as entrevistas foram realizadas entre dezembro de 2020 e março de 2021, momento em que as pessoas já não contavam com o auxílio emergencial. Isso explica a grave situação encontrada, bem como reforça a necessidade urgente de retomar essa política pública.


As mulheres que receberam o auxílio emergencial destacaram que esse recurso ajudou bastante, em especial para pagar o aluguel, pagar contas, comprar alimentos e insumos básicos para a casa.



MULHERES QUE CUIDAM


Além das condições e características do trabalho, procuramos compreender também outros aspectos da rotina destas mulheres, como o tempo para o lazer e para cuidar de si própria.


Percebemos que mesmo antes da pandemia a maioria das mulheres possuíam poucas perspectivas de lazer, algo que piorou no contexto atual. Mesmo nos casos em que as entrevistadas relatam seus momentos de lazer, a maior parte desses relatos nos mostra que o que elas compreendem como lazer também está vinculado ao cuidado, ao ato de cuidar do outro.


Receber a filha e os netos em casa, fazer um almoço de domingo para a família, ir ao parque com as crianças. Esses são exemplos recorrentes que as entrevistadas destacaram do que fazem em seu momento de lazer.


Além de cuidar da casa da patroa, precisam também cuidar das suas casas e de seus filhos. Infelizmente, ainda Tarefa exclusiva para a maioria das mulheres. Para elas o cuidado da casa nunca acaba, inclusive algo que nos chamou atenção nos áudios enviados, foi perceber ao fundo o barulho das crianças.


SER MULHER: ORGULHO E DIFICULDADES


Durante as entrevistas reforçamos a importância das mulheres nos relatarem suas rotinas, pois realmente nos importamos em compreender o cotidiano delas. Após relatarem seu dia a dia, no final da entrevista fizemos uma pergunta muito simples, mas ao mesmo tempo profunda: “para você, o que significa ser mulher?”.


A maioria das entrevistadas precisou refletir bastante para responder a pergunta. Isso aconteceu, muito provavelmente pelo fato de que as mulheres estão mais acostumadas a ouvir afirmativas do “que eles devem ser” e não perguntas como “o que gostariam de ser”. Portanto, Provocar essa reflexão nos pareceu bastante importante.


Todas as mulheres entrevistadas, sem exceção, responderam que ser mulher é ser guerreira, batalhadora ou lutadora. Para elas Ser mulher é sinônimo de superar os desafios e vencer na vida.


Embora nenhuma delas tenha falado a palavra “feminismo” ou “interseccionalidade”, todas falam, refletem e expressam-se a partir de sua consciência de classe e gênero. Ao mesmo tempo, que ser mulher para as entrevistadas, é motivo de orgulho, também implica em desafios. Muitos desses de ordem estrutural, como por exemplo: dificuldade em conseguir emprego quando possuem filhos; o tempo e as condições de insegurança no deslocamento para o trabalho, entre outros.



Realização: UNAS Heliópolis e Região | Observatório De Olho Na Quebrada

Apoio: Open Society Foundation e ActionAid Brasil

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