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  • Escrito por Wallace França | Editor Douglas Cavalcante

26º Caminhada pela Paz de Heliópolis

Caminhada na Maior Favela de São Paulo reforça o compromisso da comunidade com a Cultura de Paz


No dia 07 de Junho, aconteceu a 26ª Caminhada pela Paz de Heliópolis organizada pela UNAS – União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região e pelo Movimento Sol da Paz de Heliópolis, reunindo milhares de pessoas dos diversos equipamentos públicos e organizações sociais de Heliópolis, manifestando nas ruas, a importância de reforçar os valores e ações que estão ligados diretamente na construção do Bairro Educador através da Cultura de Paz. O tema da caminhada desse ano foi “Políticas Públicas + Consciência Comunitária = Sociedade Educadora”.

A Caminhada de Heliópolis tornou-se um importante marco para comunidade e também para escolas, projetos sociais e diversos movimentos presentes no território, que mantêm vivo o contexto da luta pela garantia de direitos e pela promoção da Cultura da Paz, a partir de um trabalho contínuo que olha para realidade de uma comunidade com grandes vulnerabilidades, mas que ao longo dessa trajetória, encontrou um caminho muito especial de transformação através da educação, da união e da paz. 



Além do trajeto que percorre boa parte do território, uma expressiva gama de atividades é realizada nas escolas e demais projetos, levando o fruto dessas reflexões e provocações para o dia da caminhada. Para Marília de Santis, diretora da Escola Gonzaguinha e uma das coordenadoras do Movimento Sol da Paz, o grande trabalho pedagógico realizado durante os períodos que antecedem a caminhada, reflete positivamente toda construção do que é o Bairro Educador, que conta cada vez mais com a participação e envolvimento das escolas públicas do entorno.

 

“A Caminhada da Paz é a grande expressão do Bairro Educador de Heliópolis. O nosso trabalho dentro do Movimento Sol da Paz ao longo de todo ano é criar agendas em comum, articulações que se manifestam plasticamente e lindamente no mês de junho durante todos esses anos. Os projetos sociais, a UNAS, as escolas e cada vez mais outras escolas, estão aderindo a esse processo que vem a partir desse aprendizado enquanto movimento social, enquanto sociedade civil organizada, gestão pública organizada e como tudo isso pode de fato fazer com que a consciência comunitária se expanda e aprofunde cada vez mais, mas que a gente consiga também aprender a lutar juntos por políticas públicas. A Escola Campos Salles foi a grande pioneira e nos ensinou e ensina tudo isso pra gente, tendo essa liderança na convocação das demais escolas do entorno, juntando cada vez mais intimamente à UNAS para que possamos fazer de fato esse trabalho muito bem articulado. O grande ganho desse trabalho foi desnaturalizar a violência, onde hoje a tolerância na comunidade, nas escolas e projetos, é zero. Ela existe e enquanto ela existir nós vamos gritar e lutar. Esse é um passo importantíssimo porque essa é a base da escola e a escola só tem sentindo se for para que a vida das pessoas seja melhor, para que a nossa sociedade seja mais justa, inclusiva e amorosa e tudo isso a gente aprende com o Movimento Sol da Paz.”

 

A concentração começou às 13 horas em frente à EMEF Presidente Campos Salles, ponto tradicional da saída e chegada da caminhada, que logo estava tomada por estudantes, professores, lideranças comunitária, junto com os moradores da comunidade, trazendo muitas cores, manifestações e denúncias nas bandeiras, camisetas, cartazes e adereços, trazendo um bonito colorido com reflexões em torno de temas como à cultura de paz, a cidadania, os direitos humanos e o cotidiano da comunidade. Em meio à multidão, Braz Nogueira, um dos idealizadores da Caminhada pela Paz, acolhia as pessoas de maneira muito alegre e entusiasmada. Braz destaca muito emocionado, como esse processo da caminhada renova-se a partir do compromisso de lideranças, mas principalmente a partir da mobilização das crianças que estão dando continuidade na expansão da consciência comunitária e na luta por políticas publicas através da educação libertadora.



“Eu estive presente em todos esses 26 anos na Caminhada pela Paz e talvez hoje seja o dia mais alegre da minha vida porque eu vi algumas coisas ontem e hoje, que me alegrou muito. Eu sonho que as escolas de Heliópolis, com o tempo e na medida em que vão se desenvolvendo, vai nascer um projeto político pedagógico que tenha as crianças e os alunos como foco, e essas crianças vão experienciar a cidadania a cada dia e vão viver os princípios do Bairro Educador cotidianamente. No caminho aqui próximo da concentração, encontrei duas meninas pequenas, uma estuda no Gonzaguinha e a outra do Campos Salles, e elas me falaram que o evento que elas mais gostam é a Caminhada da Paz e elas estavam juntas convidando as pessoas para participar. Eu fiquei sonhando quando as nossas crianças se tornarem mobilizadores da Caminhada da Paz. É daí que vai nascer as soluções dos problemas, ampliando a consciência comunitária, ficando para o poder pública apenas uma coisa, fazer aquilo que a sociedade necessita, não fazendo apenas políticas públicas eleitoreiras, pensando na continuidade dos políticos, até contra o interesse de certos grupos.” 



A Caminhada Pela Paz de Heliópolis surgiu em 1999, quando uma aluna da EMEF Campos Salles foi assassinada no caminho de volta para sua casa. Leonarda tinha apenas 15 anos e se tornou símbolo da luta contra a violência que vitimava muitos jovens na comunidade. Hoje muitas outras violências atingem e alcançam crianças e adolescentes. Muitos projetos trazem para a caminhada o seu próprio manifesto através de denúncias como a exemplo do Centro para Criança e Adolescente Imperador que sofre com a violência a partir do Racismo Ambiental. Kátia Rodrigues Martins, gestora do CCA nos conta qual a importância de levar uma bandeira de luta tão importante para as crianças e famílias do território onde o projeto está inserido.

“Hoje trouxemos a bandeira da luta contra o Racismo Ambiental que provoca diversas violências e buscamos uma conscientização que o nosso território, a porta do nosso CCA, não é descarte de lixo. As pessoas precisam ter a consciência de fazer o descarte do seu lixo produzido nos dias certos da coleta e não em qualquer dia da semana. O poder público precisa olhar para os nossos territórios e colocar lixeiras em pontos estratégicos, principalmente ali no entorno que possui muitos becos e vielas. Estamos aqui lutando por isso, crianças e educadores juntos e empoderados nessa caminhada. Estamos felizes em estar aqui com a comunidade em peso na rua para reivindicar os nossos direitos de maneira pacifica enquanto cidadãos de direitos, buscando esse olhar da sociedade mais humanizada para as favelas e periferias".



A cada ano, a Caminhada pela Paz de Heliópolis se renova e ganha cada vez mais pessoas para esse grande movimento pela cultura de paz, refletindo positivamente como esse trabalho intenso está provocando e transformando a vivência de muitas pessoas, principalmente para crianças e adolescentes, dando sentindo a luta e a conscientização para uma Sociedade Educadora. Victor Gomes de Oliveira de apenas 13 anos estava à frente do seu CCA, segurando a bandeira do projeto e participando ativamente desse movimento. “Sou um adolescente periférico e bissexual e acredito muito que precisamos persistir até o fim para garantir todos os nossos direitos. A Paz é importante para toda a nossa comunidade e precisamos seguir juntos porque só assim vamos sobreviver a esse sistema que é sim patriarcal e opressor.”


 
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