‘Aqui me acolheram’: conheça trajetória de Núbia transformada pela Biblioteca Comunitária
- Escrito por Marcela Muniz | Editor Douglas Cavalcante
- há 24 minutos
- 6 min de leitura
Apaixonada por livros, percorria quilômetros para ler até encontrar refúgio e portas abertas no projeto da UNAS em Heliópolis

A Biblioteca Comunitária de Heliópolis foi inaugurada em 2005 pela UNAS e, atualmente, impacta diretamente a vida de cerca de 300 pessoas por mês, através do empréstimo de livros e da realização de atividades culturais. A Biblioteca é um dos projetos sociais que integram o Bairro Educador, um conceito que norteia o trabalho de diversos equipamentos na maior favela de São Paulo e busca transformar a realidade do território. Núbia Almeida, 39 anos, é exemplo de uma mulher periférica que teve a vida marcada pelo trabalho realizado pela Biblioteca. Porém, esse impacto não foi apenas no seu acesso à cultura, o projeto possibilitou para ela um novo início em sua trajetória acadêmica.
Com apenas 6 anos de idade, mesmo sem saber ler ainda, Núbia descobriu o seu amor por livros. “Eu escolhia um livro, ficava apaixonada pelas figuras e imaginava as histórias. Ali nasceu o desejo de aprender a ler”, compartilha. Aos 12 anos, chegava a percorrer 8 km a pé, algumas vezes na semana, para buscar livros emprestados em equipamentos públicos. Ela conta que, por anos, se arriscou em trajetos em que se sentia insegura, para que pudesse abraçar o seu desejo pela leitura. Mas, apenas em 2012, quando conheceu a biblioteca em Heliópolis, Núbia encontrou acolhimento e conheceu a possibilidade de transformar a sua paixão em uma carreira profissional.
Quando se sentir bem-vinda fez toda a diferença
Núbia conta que, desde a sua primeira vez na Biblioteca Comunitária de Heliópolis, a sensação sobre o lugar era diferente. Já se sentia mais à vontade e “pertencente” em um espaço que havia acabado de conhecer. “A gente, que é da periferia, sente. Às vezes, você chega em um lugar, e o pessoal, que frequenta e é de classe média, te olha torto, esquisito. Eu me sentia mal”. O relato de Núbia evidencia o motivo da familiaridade com o espaço desde o primeiro momento: o fato da Biblioteca estar localizada dentro da favela.

Ângela Aparecida, 61 anos, coordenadora da Biblioteca Comunitária de Heliópolis e membra da Diretoria Ampliada da UNAS, reflete sobre o trabalho do projeto, que busca justamente proporcionar esse tipo de representatividade para o seu público: “As atividades que a gente proporciona, os livros que a gente indica e os que estão nas prateleiras, dialogam com a nossa realidade”.
Essa dinâmica de atuação permite que sejam estabelecidas relações sólidas com as pessoas que frequentam a Biblioteca, de modo que não estejam ali apenas para buscar ou devolver livros. E esse é um dos pilares do equipamento: “Queremos manter as pessoas por perto”, reforça a coordenadora.
E não foi diferente no caso da Núbia. Ângela relembra como foi quando ela começou a frequentar a Biblioteca, que após um tempo se tornou como um “segundo lar” para a leitora: “Ela sempre foi muito tímida, calada, mas eu puxava assunto para ver se ela ficava um pouco mais desinibida”. Alguns anos após conhecer Núbia, a diretora da UNAS precisou contar com o seu apoio para a manutenção do espaço.
Havia quase um ano que estava trabalhando sozinha na Biblioteca, visto que o projeto não é uma política pública e, na época, não contava com nenhum recurso para manter a sua equipe. “Perguntei se ela poderia me ajudar e ela foi super compreensiva, disse que viria para fazer trabalho voluntário”, conta Ângela. Primeiro, ajudou com a organização do local e, depois de um tempo, passou a conhecer o sistema de catalogação dos livros e atender o público que passava por ali diariamente.
Quando conheceu a Biblioteca, Núbia estava enfrentando um episódio de depressão. “Eu não tinha vontade de sair, nem de fazer nada. Quando visitei a Biblioteca pela primeira vez, foi como um novo horizonte para mim”, lembra. Ela reflete como a frequência no espaço foi de grande ajuda para que se reestabelecesse, algo que Ângela também acredita, atuando no ramo da literatura desde 1987. “Ao longo de todos esses anos, percebi que o livro realmente pode ajudar a salvar uma vida. Quando uma pessoa enfrenta problemas pessoais, a literatura pode ser um apoio fundamental”.

O cenário de Núbia seguiu sendo transformado no momento em que foi convidada para integrar a equipe de atendimento do local, não mais de forma voluntária. Na época, houve uma oportunidade de financiamento do projeto que possibilitou o convite. Para ela, a proposta ganhou ainda mais importância pelas circunstâncias que a acometiam. “Com depressão, é difícil sair por aí para procurar emprego, ninguém dá emprego para você. Mas aqui [na Biblioteca] abriram as portas para mim”, desabafa.
Educação que transforma além dos muros
Em Heliópolis, o conceito de Bairro Educador atua na intersecção entre projetos, equipamentos públicos e iniciativas comunitárias, que promovem uma educação integrada e coletiva. Nele, os espaços educativos que o compõem se conectam com o entorno e com as diversas realidades do território, sem se limitar aos seus muros ou às suas principais atribuições institucionais. Seguindo essa lógica, a UNAS aplica a dinâmica ao seu trabalho, reconhecendo a individualidade de cada um dos atendidos e o que os acomete ‘da porta para fora’ dos projetos.
Como integrante dessa rede, a Biblioteca também pôde impactar o cenário de Núbia ao enxergá-la para além de uma leitora, mas como uma pessoa atravessada por desafios diversos. Diagnosticada com Transtorno Afetivo Bipolar durante a pandemia, Núbia sempre enfrentou dificuldades, tanto profissionais quanto acadêmicas. Ela comenta que a Biblioteca foi um espaço que a aceitou como nunca tinha sido aceita antes. “Em outros lugares [que trabalhei] sempre tinha alguém perturbando ou estranhando o meu jeito. Aqui sempre tiveram muita paciência e me acolheram. Nunca fui questionada ou aborrecida”.

Sua situação financeira também se tornou, diversas vezes, um obstáculo para que pudesse estudar. “Trabalhei em muitos lugares, fazendo bastante coisa. Já fiz muito bico. Durante um período, trabalhei como cuidadora de idosos e até fiz um curso de Auxiliar de Enfermagem; mas, não consegui terminar, pois não tinha dinheiro o suficiente”, compartilha. Com uma nova perspectiva sobre a sua vida e o seu futuro, desde que havia começado a frequentar a Biblioteca, Núbia desenvolveu uma nova ambição: estudar Biblioteconomia.
Esse era um desejo que já se manifestava em seu interior desde jovem. “Desde que frequentava outras bibliotecas, eu via as meninas [que trabalhavam ali] e pensava: ‘eu quero um trabalho assim’”, lembra. Porém, a realização desse sonho começou a se aproximar quando teve uma oportunidade: a oferta de uma bolsa de estudos para a sua graduação.
Ângela conta que a bolsa de estudos foi fruto de uma parceria com uma instituição de ensino, que já possuía relação com a Biblioteca. “Quando a faculdade nos solicitou a indicação para a bolsa, logo pensei na Núbia, porque ela já gostava muito da área. Seria uma chance para mudar a vida dela”, conta a coordenadora. Em um primeiro momento, Núbia relutou. Mesmo quando já estava participando das aulas na faculdade, pensou em desistir da graduação. “É um ambiente diferente, que, no início, me deixou um pouco desestabilizada”, desabafa.
Seguindo a lógica do Bairro Educador, que visualiza a educação como uma ferramenta de transformação, a diretora da UNAS se manteve firme em apoiar Núbia para que não desistisse. “Uma vez, a Ângela me falou: ‘Veja bem, são três anos [de graduação]. Esses três anos vão passar do mesmo jeito. É melhor você passar esses anos estudando, do que passar sem fazer nada que agregue ao seu futuro’. Isso me marca até hoje”, afirma Núbia.
Atualmente, Núbia está finalizando a sua graduação. Ela destaca como o suporte de Ângela, durante todo o processo, foi essencial. “Ela foi como uma mãe para mim”, diz.

A dinâmica da coordenadora da Biblioteca segue a lógica de um trabalho realizado pela UNAS, fundamentado no princípio de que tudo passe pela educação. A iniciativa de olhar para além do atendimento nos projetos, permite que as diversas realidades sejam transformadas para a consolidação de um Bairro Educador.
Biblioteca Comunitária de Heliópolis
R. da Mina Central, 372 - Heliópolis
Segunda a sexta-feira, das 8h às 17h
E-mail: bibliotecaheliopolis@unas.org.br






























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