Os desafios da Educação na pandemia

“Já tinha muita coisa que não estava bem antes da pandemia, e depois de todo esse sofrimento agora a gente tem uma oportunidade de repensar e fazer uma escola diferente, que seja realmente popular e de qualidade.”

 

De acordo com dados da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), agência ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 1,6 bilhão de estudantes foram obrigados a deixar as salas de aula em mais de 190 países conforme a pandemia da COVID-19 avançava, provocando um cenário inédito de isolamento social e uma transição para o ensino remoto.


Esta mudança expôs mais uma vez, e com ênfase, um sistema de educação fragilizado e gerido “pessimamente”, como diz Marília De Santis, diretora da E.M.E.F. Luiz Gonzaga do Nascimento Jr., membro do Movimento Sol da Paz de Heliópolis e da diretoria ampliada da UNAS


“O Ministério da Educação não formulou até agora nenhuma proposta, nada que ajude as escolas e os estudantes.” explica a diretora. “Enquanto isso, os políticos estão se preocupando com a reeleição.” A conta de um ensino precário e sucateado foi cobrada aos professores que tiveram que praticar a “sevirologia”, a arte de se virar para garantir atividades escolares aos alunos.

“As escolas trabalharam muito nesse período para manter a comunicação com as famílias e com os alunos: os professores precisaram se reinventar para atender os estudantes de forma remota, utilizando seus próprios celulares, montando grupos de Whatsapp, adaptando roteiros de estudos, foram muitas as ações para que a escola chegasse nas casas pessoas.” continua

Dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) identificam a falta de assistência no ensino remoto, apenas 43% das escolas estaduais disponibilizaram equipamentos, como computador, tablets, notebook e celular, para os trabalhos dos professores. Este número cai para 19% na rede municipal. Em relação ao acesso gratuito ou subsidiado à internet em domicílio, o Inep aponta que apenas 16% das escolas estaduais disponibilizam este recurso aos professores, na rede municipal foi de 2%.


“Os tablets demoraram mais de um ano para chegar, às salas de aula digitais não foram instaladas até hoje, há lugares na comunidade em que não há sinal de internet, enfim, não houve inclusão digital. As cestas básicas e os cartões merenda não chegaram para todos, tem gente que não conseguiu retirar uniforme e material escolar até hoje.”

Esta conta chegou também para os milhões de alunos que não tiveram a acessibilidade ao ensino remoto pensado, encontrando dificuldades para a permanência nas atividades, como explica Marília.

“Enquanto os estudantes da classe média e da classe alta continuaram seus estudos em suas casas, protegidos da pandemia e com aulas online, nosso povo esteve desamparado, sem condições de acesso às aulas, e muitas vezes enfrentando todo tipo de violência. A pobreza se intensificou, as famílias perderam renda, a fome começou a bater na porta.” conta Marília, que relata uma forte evasão escolar. “Muita gente que foi embora de Heliópolis porque não tinha dinheiro para pagar o aluguel. Isso aparece no alto número de evasão: alunos que foram embora para outros estados, outras cidades, ou que estão morando nas ruas, vendendo bala no farol.”

As aulas presenciais retornaram para 100% dos matriculados em São Paulo, o que nos faz questionar os desafios da educação no futuro. “Já tinha muita coisa que não estava bem antes da pandemia, e depois de todo esse sofrimento agora a gente tem uma oportunidade de repensar e fazer uma escola diferente, que seja realmente popular e de qualidade.” detalha a diretora. “Mas isso depende de todos, famílias, estudantes, educadores, lideranças comunitárias.” Finaliza Marília convidando todos para à luta.

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