Jovem é aprovada na OAB e oferece atendimento jurídico em projeto na comunidade

Advogada formada, Agatha tem orgulho de ser uma mulher criada na periferia e que por escolha, atua diretamente através de projetos sociais, na comunidade onde cresceu, resinificando o papel da advocacia para as pessoas.

Na UNAS temos inúmeras trajetórias inspiradoras que vão ao encontro da missão e dos valores da organização. Uma dessas histórias tem como protagonista Agatha, advogada do projeto jurídico que recentemente finalizou sua graduação e conquistou sua aprovação na Ordem dos Advogados do Brasil, podendo exercer sua profissão plenamente. Uma grande característica foi a busca pela melhor educação possível, dentro ou fora do território, não limitando-se as distâncias e desafios, pelo contrário, foram elementos propulsores para que essas oportunidades pudessem se transformar em uma história de mudança.


Agatha Bruna Santana de Moraes, 24 anos, casada com Douglas, mãe da Laura de 2 anos, nasceu em São Paulo e morou entre a Vila Carioca e Heliópolis. Sua mãe chegou da Bahia para morar na comunidade há 25 anos atrás e permanece até hoje. Estudou na rede pública de ensino em escolas da região do Ipiranga na intenção de fortalecer sua base curricular. Mudou para outro colégio em São Caetano do Sul onde pela primeira vez foi destacada por morar em Heliópolis: “Nesse momento foi meu primeiro grande impacto. Eu sai de uma zona de conforto onde eu era amiga de todo mundo e como eu ia na van com pessoas apenas de Heliópolis, percebi que éramos taxados como a van que chegava da favela.” A continuidade dos estudos se deu pelo curso técnico de administração na escola Getúlio Vargas.


Com a conclusão do Ensino Médio, Agatha realiza a prova do ENEM e conquista sua vaga na Universidade Federal de Salvador (Bahia) para o curso de Direito através do SISU (Sistema de Seleção Unificada), um projeto do Ministério da Educação que permite o acesso de estudantes a instituições públicas do ensino superior. Uma mudança em busca da realização da sua formação superior foi necessária. “Mudei de Estado, morando de favor em uma nova realidade. No primeiro semestre a faculdade entrou em greve, alterando minha programação e por esse motivo decidi voltar para São Paulo.” Mesmo depois da mudança de planos, Agatha continua em busca do retorno para universidade onde foi contemplada com uma bolsa 100% pelo PROUNI (Programa Universidade Para Todos). “A faculdade ofertava cerca de 200 bolsas, quando entrei só tinha 10 e hoje é ainda menor a oferta. Os meus colegas não acreditavam que eu era bolsista e eu afirmava que se não fosse, eu não estaria na faculdade, isso eu tenho certeza. Meus pais jamais teriam condições de pagar as mensalidades e eu não teria um emprego que eu pudesse dispor de mais de mil reais para custear meus estudos.”


No terceiro ano da faculdade, Agatha engravidou e foi muito pressionada para trancar o curso por conta da gestação. Enjoos, sonolência, mal estar e dificuldades de deslocamento, ocasionou um grande número de faltas que poderia levar ao encerramento da bolsa. Por esse motivo ela trancou o curso por um semestre. “Eu vou voltar, eu vou voltar! E acabei voltando nos últimos meses da gestação. Estudei até o dia que minha filha Laura nasceu.” Em agosto daquele ano, ela retorna para sala de aula com a filha recém nascida. “Realizei minhas provas com muitos desafios, não tinha o contato dos colegas de turma pela falta dos vínculos, chegando ao processo do ensino a distância por conta da pandemia cuidando da bebê e conciliando com as aulas online.


No começo da graduação, Agatha inicia seu estágio no projeto jurídico na UNAS, que pra sua surpresa e interesse, era muito próximo da sua casa. “Indiquei muitos colegas para trabalhar aqui na UNAS, que se formaram e destacam a importância do trabalho em Heliópolis através da vivência e da prática, levando para dentro da universidade o ponto de vista de quem atua aqui em dentro.”


Para Agatha, o atendimento jurídico tem um grande impacto para população que está a margem desse acesso. "Temos que pensar no deslocamento das pessoas até a defensoria central. Quantas pessoas deixaram de ir atrás do seus direitos pela distância ou dificuldade em arcar com os custos de transporte e documentação? Hoje o nosso projeto ‘Portas Abertas da Comunidade’ está inserido dentro do território. Saber das suas necessidades, conhecer o território, falar a mesma linguagem, é muito importante e faz total diferença.”


Escolha do curso, mudança para outro Estado, retorno para São Paulo, gestação, pandemia e final da graduação, foram grandes desafios, mas a prova da OAB estava por vir. “Esses dois últimos anos eu não tive tempo de esmorecer. Não foi possível se lamentar. Realizar a prova da ordem sem conhecer ou ter apoio de colegas, conciliando trabalho de conclusão de curso e vida pessoal, não foi fácil. Pensamentos negativos e até considerar desistir, passou pela minha cabeça. Mas mesmo assim persisti, estudei e realizei a prova.”


Uma história de mudança onde tudo pela educação é a síntese da trajetória que enche de orgulho familiares e amigos. “Eu converso com minhas amigas e elas falam que não acreditam que tem uma amiga formada em Direito. Eu espero que isso sirva de incentivo para todos. Todo mundo pode. Se você é mãe pode, se você está grávida você também pode, se você é jovem ou mais velho, pode! Qualquer um pode.”


Advogada formada, Agatha tem orgulho de ser uma mulher criada na periferia e que por escolha, atua diretamente através das políticas públicas, na comunidade onde cresceu, resinificando o papel da advocacia para as pessoas.

“Eu gosto muito de trabalhar aqui mesmo as pessoas me questionando e pressionando para trabalhar fora. Atuar ajudando pessoas aqui do território, estando inserida na minha realidade, não se colocando em um ‘pedestal’, utilizando uma comunicação objetiva e explicando de maneira simples e inclusiva, todos os processos, é gratificante”.

Esse relato inspirador e real da Agatha, nos mostra o quão se torna importante acreditar e trilhar caminhos que passam pela educação que liberta e possibilita mudanças concretas de vida e que podemos realizar uma devolutiva para comunidade que nos acolhe.

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