Em Heliópolis, 86% da população relata se sentir deprimida na pandemia

Não é tarefa fácil investigar uma questão tão subjetiva e complexa. Mas o Observatório De Olho na Quebrada assumiu esse desafio pelo fato da saúde mental ser tão determinante para a vida das pessoas. Durante a pandemia, os problemas relacionados a este tema ficaram ainda mais evidentes: um amigo, um familiar, um conhecido que “não está bem”. Não é só em Heliópolis que esta situação tomou uma grande proporção. A própria OMS (Organização Mundial da Saúde) alertou para o impacto da pandemia na saúde mental das pessoas.

Entre os meses de Junho e Agosto o Observatório De Olho Na Quebrada desenvolveu uma análise quantitativa e qualitativa sobre o impacto da pandemia na Saúde Mental em Heliópolis. A pesquisa contou com 281 participações, das quais a imensa maioria são mulheres, e por isto os dados estatísticos aqui expostos devem ser considerados a partir deste recorte de gênero. A elaboração do formulário contou com o apoio de pesquisadores da área da saúde pública da UNIFESP.


Para compreender com mais profundidade estes indicadores, coletamos depoimentos de alguns moradores e também conversamos com profissionais dos equipamentos de saúde da região. É importante destacar que não identificamos as pessoas entrevistadas. Os relatos são apresentados com uma letra fictícia e a idade do(a) entrevistado(a), assim preservamos sua identidade e privacidade.

• Mal estar na pandemia

Antes de olharmos para os fios que compõem esta trama, é importante sinalizar que nossa concepção de saúde mental não estará apartada da saúde física, assim como também não ficará distanciada da vida das pessoas na comunidade e nos espaços públicos. A vida privada também parte da vida pública. A falta de alimentação para si e para seus filhos, o isolamento, o rompimento de laços afetivos com a vida cotidiana e a rotina, o desemprego e a impossibilidade de velar um ente querido se mostraram correlacionadas com isto que denominamos “saúde mental”.


Também as formas de cuidado consigo e com o outro são múltiplas, seja indo ao posto de saúde para o atendimento médico, seja na busca por dividir sua dor com um outro que possa torná-la menos solitária. Como disse R. , 46 anos, morador da favela e que tem atuado com a distribuição de cestas básicas para a comunidade: “Ficar sem alimento, deprime”.


O objetivo dessa pesquisa é tecer um panorama sobre a saúde mental, compreendendo como a pandemia tem afetado a vida dos moradores de Heliópolis.

É grande o número de pessoas que têm procurado os equipamento públicos de saúde da região relatando sentirem-se “deprimidas”, tristes, com falta de ânimo, ansiedade, medo de sair de casa e ficar doente, de perder alguém da família. Alguns relatam episódios de “crises de ansiedade”, e muitas vezes acham que lhes falta o ar ou que o coração acelera, mesmo quando os exames não apontam nada: “Formigamento, angústia, aperto no peito, falta de ar, coração acelerado”. Foi assim que F., 27 anos, nos descreveu um mal estar que o acompanhou desde o princípio da pandemia e que melhorou com o acompanhamento psiquiátrico de um serviço público local.


Ele atribui estes episódios à perda de rotina: “Antes eu tinha a vida muito agitada, eu ia dançar, ajudava no bar, fazia a recepção (de eventos), trocava idéia com todo mundo. Devido à pandemia, eu surtei, fiquei em casa, não queria comer. Corria pro médico achando que eu estava infectado. Só chorava. Muito ansioso.”


A imensa maioria das participantes da nossa pesquisa, relata terem suas atividades normais limitadas com o início da pandemia. O fechamento de espaços de educação, lazer e cultura da região e também as orientações de distanciamento social podem ter contribuído para este número muito alto de respostas.


A rotina – seja em sua ausência ou em uma brusca mudança – aparece como um marcador de ritmo de sustentação da vida cotidiana. B., 20 anos, estudante de enfermagem, envolvida com muitas atividades de proteção a comunidade, relatou um episódio de estafa: “Tive duas crises de ansiedade na última semana. Tenho tido falta de ar, palpitação no coração, fico tremendo as pernas todo o tempo, me dá ânsia de vômito e às vezes até vontade de vomitar”. Para ela, isto pode estar associado à quantidade de atividades que tem desempenhado desde que a pandemia começou, já que faz parte de grupos que têm trabalhado arduamente há mais de quatro meses para suprir a ausência do Estado, no que diz respeito aos cuidados com a população durante este período.


• (A falta de) sono durante a pandemia


Nos chama a atenção que mais da metade das pessoas que responderam ao nosso questionário relatam que as preocupações com a pandemia afetaram a qualidade de seu sono. Segundo a psicóloga de um serviço local, as dificuldades com o sono apareceram muito nas queixas dos pacientes. Não só a qualidade do sono parece ter sido afetada, como também agravada por “transtornos do sono”, como descrito por uma matéria da Agência Mural. Nesta matéria, divulgada em Julho, fala-se sobre o aumento de “paralisia do sono” em moradores das periferias de São Paulo. Qual não foi a nossa surpresa ao saber que haviam conhecidos nossos passando por situações similares durante a noite.

L., 22 anos, nos conta o episódio: “Sou muito ansiosa, um dia fui dormir pensando na quarentena, no que ia acontecer. Do nada, eu acordei, tentava me mexer mas não conseguia, tentei falar, gritar, mas ninguém da minha casa me ouvia, comecei a sentir falta de ar, deu desespero, foi muito agoniante”.


Dormir e sonhar parece ser um privilégio de poucos, especialmente durante a pandemia. Para entender o que estão sonhando os moradores de Heliópolis durante este período, nos dispusemos a coletar sonhos, para quem quisesse nos contar. Este poderia ser mais um elemento que nos ajudasse a diagnosticar as angústias do tempo presente. Há diversos estudos acadêmicos a partir da coleta de sonhos, e foi nesta toada que também decidimos fazer esta pergunta para as pessoas: Com o que você tem sonhado?

“Trabalho no AMA, na limpeza. Às vezes tenho sonho com as pessoas que estão sendo transferidas pelo covid. Acordo assustada.” (J., 37 ANOS)

“Meu pai está internado com covid-19 e desde o dia 22 de Maio eu sonho com ele, dando banho no leito, ele careca...” (N., 43 ANOS)

“Difícil sonhar, muitas preocupações, quase não durmo. viro a cama a noite toda, tem dia que tomo dramiN DUAS vezes POIS um só não faz diferença...” (O., 27 ANOS)

• Considerações finais


Há outros temas relacionados à questão da saúde mental que não couberam aqui, mas que também merecem ser mencionados, e eventualmente aprofundados em pesquisas futuras. Ritualizar a morte dos que se foram e poder se despedir de alguém querido é algo de extrema importância para que as pessoas possam seguir com suas vidas, dando tempo ao tempo, mas podendo elaborar a passagem. De uma hora para outra, a morte deixa as pessoas desamparadas, um montante de afeto que era destinado a uma pessoa se encontra sem destino. Que saídas coletivas poderíamos encontrar para um momento como este?


Também o consumo de álcool e outras drogas merece atenção de quem pretende pensar os efeitos da pandemia. Em conversa com um profissional que atua na região, ele nos contou que houve um aumento considerável do consumo de álcool e uma série de problemas associados a isto, como por exemplo sua correlação com o aumento da violência doméstica.

Realização: UNAS Heliópolis e Região | Observatório De Olho Na Quebrada

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