Afeto e educação transformam vidas de jovens em Heliópolis

Segundo o site da Prefeitura de São Paulo, um CCA - Centro para Criança e Adolescente é um serviço que deve ter como objetivo oferecer proteção social à criança e adolescente em situação de vulnerabilidade e risco, por meio do desenvolvimento de suas potencialidades, bem como favorecer aquisições para a conquista da autonomia, protagonismo e cidadania, mediante o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários, mas com os anos de atuação da UNAS em Heliópolis e comunidades da região é possível constatar que o trabalho feito nesses espaços vai muito mais além do descrito acima. Marlene do Nascimento Inocencio, de 27 anos, comprova que o que é ensinado nesses espaços não é a educação formal, é como uma visão de como enfrentar e se portar no mundo.

Há muito tempo se discute como é o ensino nas escolas, mas aqui a escolha é falar do ensino da vida, de como enfrentar o mundo além dos muros das escolas. Marlene, é uma guerreira que aos poucos tem se descoberto como agente solidária, cidadã e pedagoga, e com certeza cada passo disso se dispõe através da sua passagem pelo CCA com 07 anos, foi quando foi deixada pela mãe e o seu pai teve que criá-la “sozinho”, mas a equipe do projeto interviu para que este momento fosse o mais seguro para ela. A situação da caçula de sete irmãos chegou a ser denunciada por pessoas que diziam que ela e os irmãos eram largados na rua porque brincavam no beco onde moravam, mas os vizinhos entraram em consenso para ajudar seu pai e para que ele não perdesse a guarda dos filhos. Seu pai levava e buscava ela e seus irmãos diariamente para a escola.


O pai dela nunca deixou de estar presente e foi catando latinhas que conseguiu sustentar a família. A vulnerabilidade não se encaixa só na fome, mas ao não ter o que vestir, moradia precária, trabalho insalubre, desemprego e a não garantia de direitos básicos constituem um ser vulnerável. “Foi uma fase muito ruim quando minha mãe foi, queria ser criança ser cuidada, mas meu pai não tenho nem o que falar, fez o trabalho de pai e mãe até hoje ele tá ali para o que der e vier, mas o era muito ruim em dia das mães, essas festinhas assim sabe” Contou Marlene ao lembrar o período em que sua mãe foi embora. Na falta da mãe educadoras do CCA da UNAS onde ela ficava conseguiram se aproximar da família e transformar a vida dela “Tia Marilene tinha amizade com meus pais, ela ia em casa eu ia na dela, e quando aconteceu isso de minha mãe ir embora ela nos recebeu ainda mais com braços abertos e teve a Mércia que também nos acolheu, que sempre que abria um projeto na UNAS ela nos chamava.” completou ela, talvez esse pequeno gesto de afeto por parte do projeto como um todo fez com que ela se sentisse amada, acolhida.

Foto: Marilene ex-educadora da jovem Marlene que hoje é Professora em uma das creches da UNAS


Durante sua passagem pelo CCA, Marlene aprendeu a como enfrentar o mundo, como enfrentar o outro que não vivia sua realidade “Nunca ficava no espaço sem aprender nada, aprendi a ter postura na mesa nessa época, aprendi a ter empatia pelo próximo, e por isso hoje eu me dou por inteiro, se alguém me diz que tá precisando eu corro eu ajudo mesmo sem saber se é verdade, eu não questiono, eu vou", destacou ela emocionada.


O projeto é um resgate de vidas, diversas crianças poderiam ter se envolvido com “coisas erradas” mas as educadoras são peças chave para que isso não aconteça, lá os beneficiários aprendem a lidar com o mundo “Lá somos referência para os alunos, mostramos para eles a como se portarem, como falar, a ver o mundo como ele é, eu falava você não vai numa entrevista de vestido ou de boné, a gente já é a comunidade mas não precisamos ser essa imagem que os outros têm da gente. O projeto é tudo isso e mais um pouco na vida desses meninos, lá eles são protegidos, já que a escola, se puder, os expulsa.” disse Marilene, ex-educadora do CCA onde Marlene e seus irmãos passaram grande parte da adolescência. A UNAS administra 11 CCA’s, distribuídos por Heliópolis e Região, atende cerca de 1560 crianças e adolescentes de 6 a 14 anos, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento pessoal e social, por meio de atividades socioculturais e educacionais no contraturno escolar que oportunizem a conquista da autonomia, cidadania, e fortaleçam vínculos familiares e comunitários.


Com esse pensamento hoje a então educadora do Centro de Educação Infantil - CEI Girassol que sempre teve o sonho de entrar na educação, queria fazer parte de algum projeto, e sempre mandava currículos “Botava na mão de deus, eu sempre quis ser educadora”, seu esposo a incentivou a fazer a faculdade, mesmo ela trabalhando com RH, Marlene sempre quis fazer pedagogia então ele a incentivou a fazer o que gosta. Ela, no trabalho que desenvolve hoje traz cada vez mais as famílias das crianças que cuida para junto de si, já que percebeu a importância do seu trabalho, tanto na educação quanto no âmbito social “A educação é transformadora é a base de tudo, se não fosse a educação hoje eu não seria o que eu sou, se na minha história não tivesse acontecido isso, eu não seria educadora, minha irmã enfermeira, e a outra formada em marketing ”.

Este tipo de projeto que trabalha com crianças e adolescentes, são muito mais que um contraturno, mas sim um local de acolhida que pensa na alimentação, no bem-estar, na educação e no cidadão que está crescendo ali naquele espaço. Amar e educar são verbos de ação, de transformação, de agir e não só falar, talvez se não fossem educadoras como a Marilene e Mércia o futuro da Marlene seria outro, nesse trabalho existe amor, cuidado e acolhimento. Histórias como essas detalham a importância de um espaço que não só trata o tempo ali como trabalho, mas que vive a realidade junto à quem é atendido, trazendo à luz as potências de cada um que passa por ali.



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