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  • Escrito por André Silva | Editor Douglas Cavalcante

UNAS lança revista com práticas de cultura de paz

A revista A Paz é o Caminho reúne práticas e conceitos sobre a utilização da justiça restaurativa como método para resolução de conflitos e o fomento da cultura de paz em espaços públicos e sociais


A questão da violência de direitos humanos tem ganhado magnitude social e mundial, enquanto se assiste a graves perdas de vidas e de dignidades. As dores são muitas. Mútuas, no compasso em que os problemas cíclicos e estruturais produzem diariamente novas vítimas em todas as frentes. Sociedades têm organizado esforços para compor enfrentamentos às vitimizações que se propagam como um vírus. Os imensos desafios colocam em evidência fragilidades institucionais, ético-legais e técnico-profissionais. E para mudar esse quadro, todos nós, ativistas, profissionais, educadores, intelectuais, gestores e defensores dos direitos humanos, somos convocados incontornavelmente.


O trabalho do projeto A PAZ É O CAMINHO nasce da indignação e da vontade de agir ante a uma onda de insegurança, desumanismo e vitimização recorrente. O projeto, idealizado e executado pela UNAS com realização do Conselho Estadual dos Direitos das Crianças e Adolescentes e do Governo do Estado de São Paulo intenciona como objetivo a valorização da cultura de paz nas escolas, a promoção de uma comunicação assertiva e não violenta e o protagonismo dos jovens através de um processo de formação sobre práticas e processos circulares para multiplicação e disseminação dessas práticas com seus pares nas escolas e comunidades municipais de São Paulo, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul.



É importante destacar que o projeto foi realizado em um momento que as escolas estavam retornando às aulas após um período de 2 anos de pandemia, o que resultou em um esforço fora do comum da direção da escola e professores, desafiados a criarem estratégias e metodologias para promover o ensino a distância. Já os alunos tiveram o impacto da pandemia associado a desigualdade social e a amplificação da ausência do estado que não teve um olhar específico para a realidade periférica.


Com este cenário, a saúde mental teve um grande impacto nos profissionais da educação, nos alunos e em seus familiares, pois a pandemia não só escancarou, como aumentou a desigualdade social, que tem seus reflexos, muitas vezes explicitada na evasão escolar, nos conflitos entre alunos, pais, professores e direção da escola; e na falta de políticas públicas que acolham as demandas geradas por essa situação. Para combater esse 'novo normal', o projeto A PAZ É O CAMINHO precisou criar um ambiente acolhedor, aberto para o diálogo com uma escuta qualificada que coloque todas as instâncias com responsabilidades compartilhadas.



A Revista A Paz é o Caminho sintetiza o trabalho minucioso e lúdico realizado entre o ano de 2022 e 2023, com depoimentos de jovens atendidos pelos processos de círculo de paz, dos multiplicadores, da equipe do projeto e de parceiros na luta pela garantia de uma justiça restaurativa.



“Três meses aprendendo, assim recuperei minha comunicação que havia perdido na pandemia. Consegui ter uma boa convivência com os outros e quando falava da minha vida, as pessoas se viam através de mim.” conta Maicon de Oliveira, multiplicador do projeto.


A revista apresenta também a importância do trabalho com a rede de proteção dos direitos das crianças e dos adolescentes, sendo trabalhado em escolas, como a Escola Estadual Manuella Lacerda Vergueiro, que fica no entorno de Heliópolis e da Escola Municipal de Ensino Professora Alcina Dantas Feijão, que fica em São Caetano do Sul; e no Projeto Meninos e Meninas de Rua, que fica localizado em São Bernardo do Campo.


“A paz que queremos vai além daquela figura da pomba.”, diz Neia Bueno, coordenadora do projeto Meninos e Meninas de Rua, de São Bernardo do Campo. “A paz que a gente quer é a paz que dá direito a saneamento básico, ao transporte público de qualidade, paz para que as pessoas possam circular, entrar na comunidade sem ser abordada de forma violenta.”


Esse trabalho com a rede é destacado com dados quantitativos referente a execução do projeto A Paz é o Caminho que teve 165 profissionais capacitados, sendo 60 professores, 50 vice-diretores e 55 profissionais da saúde, assistência social e conselho tutelar. Essa atuação em rede em prol de uma justiça libertadora foi crucial em cada um dos mais de mil e cem círculos de paz realizados no projeto, na atuação dos 45 jovens formados e nos 700 meninos e meninas impactados diretamente.



Guilherme Ramos, educador do projeto, conta na Revista A Paz é o Caminho sobre o processo desafiador dos círculos realizados. “O processo de justiça restaurativa trouxe um novo olhar de empatia, sobre as diferenças nas estruturas de classe social. O racismo de forma direta e velada, o machismo e tantas pautas tensas que até hoje são muito difíceis de se abordar, no círculo fazemos esse processo parecer mágico.”


O Projeto A Paz é o Caminho apresentou uma boa alternativa, pensando em uma escola como espaço de formação e referência para a consolidação do seu público como sujeito de direitos e protagonista da transformação através da educação com autonomia, empatia e responsabilidade. Porém esse trabalho tem que ser contínuo e contar com a participação efetiva do poder público investindo em ações como essa para dar à escola pública a devida relevância que ela merece.



“A expectativa é que o projeto vire uma política pública, afinal, estamos nessa luta desde 2006.” conta Solange Agda. “No processo circular com a Justiça Restaurativa, fomos para dentro das escolas, trabalhar a questão do bullying, com força, e foi muito bom. Foi a mudança de paradigma, o jeito pesado da escola, onde até a arquitetura nos fere, confrontando com a espontaneidade dos jovens. Mas quando estamos num lugar, até debaixo do pé de mexerica a gente educa, e se educa. A perspectiva que temos é dar continuidade a esse processo.”


 

“Não existe um caminho para a paz, a paz é o caminho.” Mahatma Gandhi


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